EUA planejam 'administrar' a Venezuela e explorar suas reservas de petróleo, diz Trump
Presidente norte-americano concedeu entrevista sobre a ação, a qual disse considerar 'extremamente bem-sucedida'
*Por Regina Garcia Cano, Konstantin Toropin e Eric Tucker / Associated Press
Horas depois de uma operação militar que retirou o líder Nicolás Maduro do poder e o tirou do país, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou neste sábado (3.jan.2026) que os Estados Unidos administrariam a Venezuela, ao menos temporariamente, e explorariam suas vastas reservas de petróleo para vendê-lo a outras nações.
“Vamos administrar o país até que possamos realizar uma transição segura, adequada e criteriosa”, disse Trump em uma coletiva de imprensa em Mar‑a‑Lago, na qual vangloriou‑se de que essa “operação extremamente bem-sucedida deve servir de aviso a qualquer um que ameace a soberania americana ou coloque vidas americanas em risco”.
A ação contra Maduro foi o ápice de uma intensa campanha de pressão do governo Trump sobre a nação sul-americana e seu líder. Teriam sido meses de planejamento secreto que resultaram na ação mais assertiva de Washington para promover uma mudança de regime em outro país, desde a invasão do Iraque, em 2003.
Especialistas em Direito levantaram imediatamente dúvidas se a operação foi legal. A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, exigiu em um discurso que os EUA libertassem Maduro e o chamou de legítimo líder do país, antes da Suprema Corte venezuelana determinar que ela assumisse o papel de presidente interina.
Falando a repórteres horas após a captura de Maduro, Trump revelou seus planos de explorar o vazio de poder para “consertar” a infraestrutura petrolífera do país e vender “grandes quantidades” de petróleo a outros países.
Maduro e sua esposa, Cilia Flores, levados durante a madrugada do mesmo sábado (3.jan) de sua casa em uma base militar, foram inicialmente colocados a bordo de um navio de guerra dos EUA, a caminho de enfrentar um processo com base em uma acusação do Departamento de Justiça por suposta participação em uma conspiração de narcoterrorismo.
Um avião com o líder deposto pousou por volta das 16h30 deste sábado em um aeroporto nos subúrbios ao norte de Nova York. Maduro foi escoltado para fora da aeronave, descendo com cuidado a escada antes de ser conduzido pela pista cercado por agentes federais. Vários agentes o filmaram com seus celulares enquanto ele caminhava.
Em seguida, foi levado de helicóptero para Manhattan, onde um comboio de veículos da lei, incluindo um carro blindado, o aguardava para levá-lo rapidamente até um escritório próximo da Administração de Repressão às Drogas dos EUA (DEA).
Um vídeo publicado em rede social por uma conta da Casa Branca mostrava Maduro sorrindo enquanto era escoltado por dois agentes da DEA que o seguravam pelos braços dentro do escritório.
Ele deverá permanecer detido enquanto aguarda julgamento em uma prisão federal no Brooklyn. Autoridades norte-americanas não confirmaram de imediato que Maduro estava na unidade prisional, mas o mesmo comboio de veículos que o levou do heliporto ao escritório da DEA foi visto chegando ao centro de detenção na noite de sábado.




Imagens: AP Photo
Este conteúdo é resultado de uma parceria anual entre o Correio Sabiá e a Associated Press (AP) –uma das maiores agências globais de notícias, com correspondentes no mundo todo, à sua disposição, traduzido para o português.
Se você reconhece os esforços que fazemos para te informar e vê valor no nosso trabalho, torne-se membro do Correio Sabiá. Comece o ano fortalecendo o jornalismo. Obtenha benefícios.
Autorização da ação não passou pelo Congresso
A base legal para a incursão, realizada sem aprovação do Congresso, não estava imediatamente clara, mas o governo Trump divulgou a derrubada como um passo para reduzir o fluxo de drogas para os EUA. O presidente ainda destacou a influência direta na liderança do país e o maior controle sobre o petróleo.
Trump afirmou que o governo norte-americano "ajudaria" a administrar a Venezuela e já o estaria fazendo, embora não houvesse sinais imediatos disso. A TV estatal venezuelana continuou a exibir propaganda pró‑Maduro, transmitindo imagens ao vivo de apoiadores nas ruas de Caracas em protesto.
Maduro e outros funcionários venezuelanos foram indiciados em 2020 por uma suposta conspiração de “narcoterrorismo”, mas o Departamento de Justiça divulgou, neste sábado, uma nova acusação contra Maduro e sua esposa, Cilia Flores, descrevendo o regime como um “governo corrupto e ilegítimo” alimentado por uma operação de tráfico de drogas que inundou os EUA com cocaína. O governo norte‑americano não reconhece Maduro como líder do país.
Trump publicou uma foto em rede social mostrando Maduro vestindo um agasalho esportivo e uma venda nos olhos a bordo do USS Iwo Jima.

Ataque na madrugada
A operação seguiu‑se a uma campanha de meses do governo Trump para pressionar o líder venezuelano, incluindo um grande aumento das forças norte‑americanas em águas próximas à América do Sul e ataques a barcos no Pacífico Leste e no Caribe acusados de transportar drogas. Na semana passada, a CIA realizou um ataque com drone em uma área de atracação que se acreditava ser usada por cartéis de drogas venezuelanos –a 1ª operação direta conhecida em solo venezuelano desde o início dos ataques em setembro.
Maduro vinha classificando as operações militares anteriores como um esforço mal disfarçado para derrubá‑lo do poder.
Realizada exatos 36 anos após a rendição e captura do líder panamenho Manuel Antonio Noriega em 1990, após invasão norte‑americana, a operação na Venezuela ocorreu sob a cobertura da escuridão no início da manhã de sábado, quando, segundo Trump, os EUA desligaram “quase todas as luzes” de Caracas enquanto as forças avançavam para retirar Maduro e sua esposa.
O general Dan Caine, chefe do Estado‑Maior Conjunto, afirmou que as forças norte‑americanas treinaram suas manobras durante meses, aprendendo tudo sobre Maduro –onde ele estava, o que comia, além de detalhes sobre seus animais de estimação e suas roupas.
“Nós pensamos, desenvolvemos, treinamos, ensaiamos, fazemos a avaliação pós‑ação, ensaiamos de novo e de novo”, disse Caine.
“Não para acertar, mas para garantir que não possamos errar.”
Na manhã de sábado, múltiplas explosões ecoaram e aeronaves voando baixo cruzaram o céu de Caracas. O governo Maduro acusou os EUA de atacar instalações civis e militares, chamando a ação de “ataque imperialista” e conclamando os cidadãos a irem às ruas.
O ataque durou menos de 30 minutos, e as explosões –pelo menos sete detonações– fizeram moradores correrem para as ruas, enquanto outros recorriam às redes sociais para relatar o que viram e ouviram. Alguns civis venezuelanos e militares morreram, disse Rodríguez, vice‑presidente do país, sem informar números. Trump declarou que algumas forças norte‑americanas ficaram feridas, mas que nenhum militar morreu.
Vídeos obtidos em Caracas e em uma cidade costeira não identificada mostravam rastros luminosos de munição e fumaça cobrindo a paisagem, enquanto explosões abafadas iluminavam repetidamente o céu noturno. Outras imagens exibiam carros trafegando por uma rodovia enquanto clarões iluminavam as colinas ao fundo. Os vídeos foram verificados pela Associated Press.
Colunas de fumaça foram vistas saindo do hangar de uma base militar em Caracas, enquanto outra instalação militar da capital ficou sem energia.
Pela lei venezuelana, Rodríguez deveria assumir o lugar de Maduro. Ela, no entanto, enfatizou em uma aparição na TV estatal, neste sábado, que não planejava assumir o poder, antes do Supremo venezuelano determinar que ela exercesse o papel interino.
“Só há um presidente na Venezuela, e o nome dele é Nicolás Maduro Moros”, disse Rodríguez.
Algumas ruas em Caracas se enchem
O partido governista da Venezuela está no poder desde 1999, quando o antecessor de Maduro, Hugo Chávez, assumiu prometendo melhorar a vida dos mais pobres e, depois, implementar uma autodeclarada revolução socialista.
Maduro assumiu o poder após a morte de Chávez, em 2013. Sua reeleição em 2018 foi amplamente considerada uma farsa, já que os principais partidos de oposição foram impedidos de participar. Na eleição de 2024, autoridades eleitorais leais ao governo o declararam vencedor poucas horas depois do fechamento das urnas, mas a oposição reuniu provas contundentes de que ele havia perdido por mais de dois votos a um.
Mostrando o quão polarizador é Maduro, pessoas saíram às ruas tanto para protestar contra sua captura quanto para celebrá‑la.
Em um protesto na capital, a prefeita de Caracas, Carmen Meléndez, juntou‑se à multidão que exigia o retorno de Maduro.
“Maduro, aguenta firme, o povo está se levantando!”, gritava o grupo.
“Estamos aqui, Nicolás Maduro. Se você pode nos ouvir, estamos aqui!”
Mais cedo, pessoas armadas e membros uniformizados de uma milícia civil ocuparam as ruas de um bairro de Caracas há muito considerado reduto do partido governista.
Em outras partes da cidade, as ruas continuaram vazias horas após o ataque. Algumas áreas permaneciam sem energia, mas os veículos circulavam livremente.
“Como eu me sinto? Assustado, como todo mundo”, disse o morador de Caracas Noris Prada, sentado em uma avenida deserta olhando para o celular. “Os venezuelanos acordaram com medo, muitas famílias não conseguiram dormir.”
Em Doral, na Flórida, lar da maior comunidade venezuelana nos EUA, pessoas se enrolaram em bandeiras da Venezuela, comeram salgadinhos fritos e comemoraram ao som de música. Em determinado momento, a multidão entoou: “Liberdade! Liberdade! Liberdade!”
Questões de legalidade
Alguns especialistas em direito manifestaram imediatamente preocupação com a legalidade da operação.
O Conselho de Segurança da ONU, atendendo a um pedido de emergência da Colômbia, planejava realizar uma reunião na manhã de segunda‑feira para discutir as operações dos EUA na Venezuela, segundo um diplomata do conselho que falou sob condição de anonimato por se tratar de encontro ainda não anunciado publicamente.
Parlamentares dos 2 partidos no Congresso dos EUA já haviam expressado reservas e objeções diretas aos ataques contra barcos suspeitos de tráfico de drogas perto da costa venezuelana. O Congresso não aprovou especificamente uma autorização para o uso de força militar para tais operações na região.
O deputado Jim Himes, de Connecticut, principal democrata no Comitê de Inteligência da Câmara, disse não ter visto nenhuma evidência que justificasse um ataque de Trump à Venezuela sem aval do Congresso e exigiu um informe imediato do governo sobre “seu plano para garantir a estabilidade na região e sua justificativa legal para essa decisão”.
*Toropin e Tucker reportaram de Washington. Colaboraram com esta reportagem os jornalistas Jorge Rueda, em Caracas; Lisa Mascaro, Michelle L. Price, Seung Min Kim e Alanna Durkin Richer, em Washington; Farnoush Amiri, em Nova York; e Larry Neumeister, em South Amboy, Nova Jersey.
Autor
Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.