Estados Unidos e Venezuela concordam em restabelecer relações diplomáticas
O rompimento ocorreu no 1º mandato de Trump, em 2019. Agora, a retomada ocorre após a captura de Maduro.
*Por Regina Garcia Cano e Megan Janetsky
O fato principal
Os Estados Unidos e a Venezuela concordaram em restabelecer relações diplomáticas, de acordo com informações divulgadas pelo Departamento de Estado nesta quinta-feira (5.mar.2026).
A medida surge após várias visitas de autoridades do governo do presidente dos EUA, Donald Trump, à nação sul-americana, na sequência da operação militar norte-americana que depôs o agora ex-presidente Nicolás Maduro em janeiro.

Desde então, o governo Trump tem intensificado a pressão sobre os aliados de Maduro, os quais foram mantidos no poder, para que aceitem seus interesses para a Venezuela.
Contexto
As relações entre os 2 países foram rompidas em 2019, durante o 1º mandato de Trump, por decisão de Maduro. Ambos fecharam as suas embaixadas mutuamente depois de Trump ter manifestado apoio público ao deputado da oposição venezuelana Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente interino do país em janeiro daquele ano. Isso fez com que o corpo diplomático dos EUA se transferisse para a vizinha Colômbia.
O Departamento de Estado afirmou, em comunicado divulgado na quinta-feira, que as conversações entre os países estavam “focadas em ajudar o povo venezuelano a avançar através de um processo faseado que crie as condições para uma transição pacífica para um governo democraticamente eleito”.
O anúncio foi feito ao final de uma visita de 2 dias do secretário do Interior dos EUA, Doug Burgum, à Venezuela. A visita focou-se principalmente no setor de mineração do país e ocorreu após uma visita, em fevereiro, do secretário de Energia, Chris Wright, que se concentrou no potencial petrolífero da Venezuela.
Os 2 secretários dizem que querem impulsionar o investimento estrangeiro na Venezuela para avançar no plano gradual do governo norte-americano de reverter a crise que assola a nação.
A presidente interina Delcy Rodríguez, ex-vice-presidente de Maduro, afirmou em pronunciamentos na televisão estatal que tais medidas “fortalecerão as relações entre nossos 2 países”.
O governo de Rodríguez, em comunicado posterior, expressou confiança de que o restabelecimento das relações diplomáticas “contribuirá para fortalecer o entendimento e abrir oportunidades para uma relação positiva e mutuamente benéfica”.
“Essas relações devem resultar na felicidade social e econômica do povo venezuelano”, disse ela.
Desde a ofensiva sem precedentes dos EUA na Venezuela, o governo Trump pressionou o governo a realizar mudanças drásticas, incluindo a abertura do setor petrolífero para empresas estrangeiras.

O governo de Rodríguez também aprovou uma lei de anistia que possibilitou a libertação de políticos, ativistas, advogados e muitos outros, reconhecendo, na prática, que o governo manteve centenas de pessoas presas por motivações políticas.

Trump surpreendeu os venezuelanos dentro e fora do país com sua decisão de trabalhar com Rodríguez, em vez da oposição política, após a deposição de Maduro.

No domingo (1.mar), a principal líder da oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, María Corina Machado, afirmou que retornará à Venezuela nas próximas semanas e que eleições serão realizadas no país.
O que muda agora?
- Sanções contra a Venezuela podem ser revistas
- A política energética pode ganhar novo peso
- A dinâmica geopolítica nas Américas pode se alterar
Discussões sobre minerais críticos
O secretário do Interior dos EUA, Doug Burgum, reuniu-se na quarta-feira (4.mar) com a presidente interina Delcy Rodríguez, no mais recente sinal da intenção do governo Trump de exercer controle sobre os recursos naturais do país sul-americano.
Rodríguez e Burgum, que lidera o Conselho Nacional de Domínio Energético do presidente dos EUA, encontraram-se com representantes de mais de duas dezenas de empresas norte-americanas de mineração e minerais, muitas das quais já operaram na Venezuela.
A visita de 2 dias ocorreu em um momento em que o governo dos EUA busca se defender do domínio da China sobre minerais críticos –alguns dos quais são abundantes na Venezuela– e avança com seu plano gradual para reestruturar o país latino-americano.
“Quando trabalhamos juntos, isso só pode significar duas coisas: prosperidade para o povo da Venezuela e para os cidadãos dos Estados Unidos, e também paz e estabilidade para o mundo”, disse Burgum a repórteres ao lado de Rodríguez, a quem elogiou por seus esforços “para reduzir a burocracia e permitir o fluxo de investimentos”.
As empresas, disse ele, “representam bilhões de dólares em investimentos e milhares de dólares em empregos bem remunerados”.
O governo republicano está tomando medidas ousadas para reforçar o fornecimento de minerais essenciais para veículos elétricos, mísseis e outros produtos de alta tecnologia, depois que a China interrompeu o fluxo desses minerais em resposta às amplas tarifas impostas por Trump no ano passado.
Embora as duas potências globais tenham chegado a uma trégua para reduzir os altos impostos de importação e as restrições às terras raras, os limites impostos pela China permanecem mais rígidos do que antes da posse de Trump.
Além do petróleo, a Venezuela é rica em ouro, cobre, coltan, bauxita, diamantes e outros recursos minerais preciosos, embora as condições de trabalho inseguras sejam comuns na indústria pouco regulamentada.
Os elementos nióbio e tântalo, ambos considerados minerais críticos e cruciais para smartphones e baterias de veículos elétricos, são extraídos do coltan. A bauxita é processada para a produção de alumínio, que os EUA também classificam como mineral crítico.
Na quarta-feira, Rodríguez anunciou que apresentará um projeto de lei para reformular a legislação de mineração do país. A mudança, que deverá atrair investimentos estrangeiros, será “uma vitória para o bem-estar social do nosso povo”.
“Que o povo venezuelano também veja os aspectos positivos de se ter boas relações com o mundo e com os Estados Unidos da América”, disse ela a jornalistas.
Trump, que surpreendeu venezuelanos dentro e fora do país com sua decisão de trabalhar com Rodríguez, uma aliada de Maduro, após sua deposição em 3 de janeiro, elogiou a presidente interina por sua cooperação com os EUA.
“Delcy Rodríguez, que é a presidente da Venezuela, está fazendo um ótimo trabalho e colaborando muito bem com os representantes dos EUA”, disse Trump em sua plataforma de mídia social Truth Social enquanto Rodríguez e Burgum se reuniam.
Antes de sua prisão, Maduro e seus aliados alegavam que a hostilidade dos EUA era motivada pela cobiça dos ricos recursos petrolíferos e minerais da Venezuela.
*Janetsky reportou da Cidade do México.



