Gaza: palestinos temem que uma nova guerra tire a atenção do mundo da sua emergência
Passagens (como Rafah) foram fechadas novamente, o que dificulta entrada de alimentos e mais suprimentos
*Por Wafaa Shurafa, Toqa Ezzidin e Cara Anna
O fato principal
Palestinos dizem temer que a guerra desencadeada por ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã possa ofuscar a frágil situação em Gaza.
Há pouco mais de uma semana, o presidente dos EUA, Donald Trump, dizia ter angariado bilhões de dólares em promessas de doações para a reconstrução do território. Agora, moradores temem um novo abandono.
Depois dos ataques do final de semana, Israel fechou novamente todas as passagens de acesso ao território devastado, que abriga mais de 2 milhões de pessoas –um dos mais populosos do mundo.
O COGAT, órgão militar israelense responsável pelos assuntos civis em Gaza, fechou as passagens de acesso a Gaza e suspendeu a entrada e saída de trabalhadores humanitários. Justificativa: as passagens não podem ser operadas com segurança sob fogo inimigo.
O órgão afirmou que as passagens serão reabertas assim que a situação de segurança permitir. Ou seja, não há data para a reabertura. O COGAT ainda disse que os palestinos na região têm estoques suficientes de alimentos.
Fome bate à porta
No entanto, organizações que atuam no território falam que os suprimentos podem acabar a qualquer momento. A situação é amplamente conhecida por toda a comunidade internacional: completa miséria. A fome bate à porta.
Palestinos disseram à Associated Press que estavam correndo para os mercados, assombrados pelas lembranças da dolorosa escassez de alimentos do ano passado, 2025, causada por meses de bloqueio israelense. Parte considerável da Faixa de Gaza, ao redor da Cidade de Gaza, ficou em situação de fome.
“Quando as passagens de fronteira foram fechadas, tudo parou de chegar ao mercado”, disse Osamda Hanoda, de Khan Younis. “Os preços subiram e as pessoas vivem na miséria.”
Preços tiveram aumento acentuado, mostram relatórios
Existe um acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas desde 10 de outubro de 2025. Mesmo assim, os bombardeios israelenses ocorrem quase diariamente. Mais de 600 palestinos foram mortos apenas neste período.
Apesar do acordo ser frágil, houve maior entrada de ajuda humanitária e outros suprimentos em Gaza.
Agora, os palestinos estão estocando novamente, com relatos de aumento acentuado nos preços de produtos básicos, como sacos de farinha.
“Temos medo de não encontrar leite” e fraldas para as crianças, ou comida e água, disse Hassan Zanoun, que foi deslocado de Rafah.
Ramadã é interrompido
Há um mês, a principal passagem de fronteira de Gaza com o mundo exterior, Rafah –a única passagem que não faz fronteira com Israel, mas sim com o Egito– foi reaberta, permitindo um fluxo pequeno e rigorosamente controlado de tráfego palestino em ambas as direções. Nenhuma carga era permitida.

Agora, todas as passagens estão fechadas novamente em meio ao mês sagrado muçulmano do Ramadã, um período de privação voluntária, banquetes noturnos e orações. Imagens mostraram palestinos enfileirados em longas mesas em meio aos escombros dos bombardeios.
Os ataques ao Irã abalaram essa rotina.
“Todas as pessoas correram para os mercados, e todas queriam comprar e se esconder”, disse Abeer Awwad, que foi deslocada da Cidade de Gaza, quando as notícias das explosões em Teerã começaram a se espalhar.
Sob o cessar-fogo mediado pelos EUA em 10 de outubro, os combates mais intensos diminuíram, embora os disparos israelenses continuem regularmente em Gaza.
O Programa Mundial de Alimentos da ONU disse que houve progresso na situação do enclave ("progresso" = da miséria para um estado ainda de miséria, mas menor), mas afirmou em sua última análise de segurança alimentar, divulgada na semana passada, que a fome persiste.
"As famílias relataram uma média de duas refeições por dia em fevereiro de 2026, em comparação com uma refeição em julho", afirmou o relatório. "Ainda assim, uma em cada cinco famílias consumiu apenas uma refeição por dia."
Enquanto isso, a World Central Kitchen alertou que seus suprimentos acabariam esta semana se Israel mantivesse as passagens de fronteira fechadas.
"Precisamos de entregas de alimentos todos os dias para alimentar famílias famintas que não fazem parte desta guerra", disse José Andrés, o chef celebridade que fundou a organização, em uma publicação nas redes sociais.
Ele afirmou que a WCK fornece 1 milhão de refeições por dia em Gaza e que o grupo e outras organizações que trabalham na Faixa de Gaza, devastada pela guerra, precisam de alimentos e outros suprimentos diariamente.
“Não podemos esperar... que os caminhões com ajuda humanitária passem hoje!”, disse ele.
Desafio para grupos de ajuda humanitária
Reorientar a atenção mundial para Gaza é um desafio para grupos de ajuda humanitária, enquanto o Irã busca uma nova liderança e as explosões continuam em Teerã, Israel e em todo o Oriente Médio.
Trump afirmou que os bombardeios no Irã podem continuar durante a semana ou mais.
É uma mudança drástica em relação ao lançamento, há menos de duas semanas, do novo "Conselho de Paz" de Trump, uma reunião de líderes mundiais que visa acabar com a guerra em Gaza, mas que também ambiciona resolver conflitos em outros lugares.
Mesmo com esse impulso em relação a Gaza, grandes desafios permanecem para o cessar-fogo. Eles incluem desarmar o Hamas, reunir e mobilizar uma força internacional de estabilização e garantir a entrada no território do comitê palestino recém-nomeado, destinado a governar Gaza.
Enquanto o Oriente Médio se volta para mais uma guerra, alguns palestinos veem um benefício: o exército israelense está distraído.
“O lado bom é que o som de explosões e demolições é raro agora perto da Linha Amarela”, disse Ahmed Abu Jahl, da Cidade de Gaza, referindo-se à linha que divide Gaza e delimita aproximadamente metade do território controlado pelas forças israelenses.
“Até os drones ainda sobrevoam a área, mas o número deles diminuiu.”
*Ezzidin reportou do Cairo e Anna de Lowville, Nova York.
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Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
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