Em 'dia sangrento' com apagão da internet, Irã reprime manifestantes
Quantidade de mortos já chega a 50, enquanto Trump continua ameaçando 'socorrer' aqueles que protestam
*Por Jon Gambrell / Associated Press
O essencial
O Irã deu sinais nesta sexta-feira (9.jan.2026) de que suas forças de segurança irão reprimir os manifestantes, desafiando diretamente a promessa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de apoiar aqueles que protestam pacificamente, num momento em que há ao menos 50 mortos.
O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, descreveu Trump como alguém com as mãos “manchadas com o sangue de iranianos”, enquanto apoiadores gritavam “Morte à América!” em imagens exibidas pela televisão estatal iraniana.
A mídia estatal passou a se referir repetidamente aos manifestantes como “terroristas”, preparando o terreno para uma repressão violenta semelhante à que se seguiu a outras ondas de protestos em anos recentes.
“[Os manifestantes estão] destruindo suas próprias ruas para agradar o presidente dos Estados Unidos, porque ele disse que viria em auxílio deles. Ele deveria prestar atenção à situação do próprio país em vez disso”, disse Khamenei a uma multidão em seu complexo em Teerã.
O chefe do Judiciário iraniano, Gholamhossein Mohseni-Ejei, prometeu separadamente que a punição aos manifestantes “será decisiva, máxima e sem qualquer indulgência legal”.
Não houve resposta imediata de Washington, embora Trump tenha repetido sua promessa de atacar o Irã se manifestantes forem mortos, uma ameaça que ganhou mais peso após a operação militar dos EUA que capturou Nicolás Maduro, da Venezuela.
Corte da internet
Apesar de a teocracia iraniana ter desconectado o país da internet e de ligações telefônicas internacionais, pequenos vídeos online compartilhados por ativistas pareciam mostrar manifestantes gritando palavras de ordem contra o governo iraniano em volta de fogueiras, com destroços espalhados pelas ruas da capital, Teerã, e de outras regiões até a manhã de sexta-feira (9.jan.2026).
A mídia estatal iraniana afirmou que “agentes terroristas” dos Estados Unidos e de Israel provocaram incêndios e estimularam a violência. Também mencionou que houve “vítimas”, sem dar detalhes.
A dimensão completa dos protestos não pôde ser determinada de imediato devido ao apagão de comunicações, mas eles representam mais uma escalada em mobilizações que começaram por causa da economia debilitada do Irã e se transformaram no desafio mais significativo ao governo em vários anos. As manifestações vêm se intensificando gradualmente desde que começaram em 28 de dezembro.

Os protestos também representam um teste sobre se a população iraniana pode ser influenciada pelo príncipe herdeiro Reza Pahlavi, cujo pai, gravemente doente, fugiu do Irã pouco antes da Revolução Islâmica de 1979. Pahlavi, que convocou atos na noite de quinta-feira (8.jan), também pediu novas manifestações às 20h desta sexta-feira.
Os protestos incluíram gritos em apoio ao xá (título do monarca do Irã; historicamente, refere-se à dinastia Pahlavi, a última monarquia a governar o país antes da Revolução Islâmica de 1979).
No passado, esses gritos poderiam render uma sentença de morte. Atualmente, evidenciam a raiva que alimenta as manifestações iniciadas por causa da economia em frangalhos.
“O que virou a chave dos protestos foram os apelos do ex-príncipe herdeiro Reza Pahlavi para que os iranianos tomassem as ruas às 20h na quinta e na sexta”, disse Holly Dagres, pesquisadora sênior do Washington Institute for Near East Policy, que acrescentou:
“Pelas postagens nas redes sociais, ficou claro que os iranianos atenderam e levaram a sério o chamado para protestar e derrubar a República Islâmica.”
“É exatamente por isso que a internet foi desligada: para impedir que o mundo veja os protestos. Infelizmente, isso provavelmente também deu cobertura às forças de segurança para matar manifestantes.”
Protestos de quinta-feira (8) à noite antecederam o apagão

Quando o relógio marcou 20h na quinta-feira (8.jan), bairros em toda Teerã explodiram em gritos, segundo testemunhas. As palavras de ordem incluíam “Morte ao ditador!” e “Morte à República Islâmica!” Outros manifestantes exaltavam o xá, gritando:
“Esta é a última batalha! Pahlavi vai voltar!”
Milhares foram às ruas antes de todas as comunicações com o Irã serem cortadas.
“Os iranianos exigiram sua liberdade nesta noite. Em resposta, o regime no Irã cortou todas as linhas de comunicação. Desligou a internet. Cortou as linhas telefônicas fixas. Pode até tentar bloquear sinais de satélite”, disse Pahlavi.
Ele também pediu que líderes europeus se unissem a Trump na promessa de “responsabilizar o regime”.
“Peço que usem todos os recursos técnicos, financeiros e diplomáticos disponíveis para restaurar a comunicação do povo iraniano, para que sua voz e sua vontade possam ser vistas e ouvidas. Não deixem que as vozes dos meus corajosos compatriotas sejam silenciadas”, acrescentou.
Pahlavi havia dito que apresentaria novos planos dependendo da resposta ao seu chamado. Seu apoio a Israel –e o respaldo recebido de israelenses– já foi alvo de críticas no passado, especialmente depois da guerra de 12 dias travada por Israel contra o Irã em junho.
Manifestantes gritaram palavras de ordem pró-xá (*explicação abaixo) em alguns atos, mas ainda não está claro se isso significa apoio direto a Pahlavi ou apenas o desejo de retorno a um período anterior à Revolução Islâmica de 1979.
*O que quer dizer 'pró-xá'?
Em um contexto histórico do Irã, o termo refere-se a indivíduos, grupos ou nações que apoiavam a dinastia Pahlavi, a última monarquia a governar o país antes da Revolução Islâmica de 1979.
O último xá do Irã foi Mohammad Reza Pahlavi. Aqueles que eram "pró-xá" geralmente defendiam suas políticas de modernização, reformas pró-ocidentais e um governo secular, frequentemente alinhado com os interesses dos Estados Unidos e de outras potências ocidentais.
O oposto, "anti-xá", referia-se àqueles que se opunham ao seu regime, incluindo clérigos islâmicos (como o Aiatolá Khomeini, líder da revolução), intelectuais de esquerda e outros grupos que viam o governo do xá como corrupto e ditatorial e excessivamente influenciado pelo Ocidente.
O corte da internet também parece ter tirado do ar as agências de notícias estatais e semioficiais do Irã. O comunicado lido na TV estatal às 8h de sexta-feira (9.jan) representou a 1ª confirmação oficial sobre os protestos.
A TV estatal alegou que os protestos foram violentos e causaram vítimas, mas não deu detalhes. Também afirmou que os manifestantes “atearam fogo a carros particulares, motocicletas, locais públicos como o metrô, caminhões de bombeiros e ônibus”.
Mais tarde, a emissora informou que a violência da noite anterior deixou seis mortos em Hamedan, a cerca de 280 quilômetros ao sudoeste de Teerã.
A União Europeia e a Alemanha condenaram a violência contra os manifestantes.
Trump renova ameaça se manifestantes forem mortos

O Irã tem enfrentado ondas de protestos em todo o país nos últimos anos. À medida que as sanções se intensificaram e o país sofreu os efeitos da guerra de 12 dias com Israel, o rial iraniano (moeda oficial do Irã) entrou em colapso em dezembro, chegando a ﷼1,4 milhão por US$ 1. Os protestos começaram logo em seguida, com manifestantes entoando palavras de ordem contra a teocracia iraniana.
Ainda não está claro por que as autoridades iranianas não reprimiram com ainda mais dureza os manifestantes até agora. Trump advertiu na semana passada que, se Teerã “matar violentamente manifestantes pacíficos”, os Estados Unidos “virão em seu socorro”.
Em entrevista ao apresentador Hugh Hewitt exibida na quinta-feira (8), Trump reiterou sua promessa:
“[O Irã] foi avisado de forma muito contundente, ainda mais forte do que estou falando com você agora, que, se fizer isso, terá de enfrentar o inferno”, afirmou Trump.
Ele desconversou quando questionado se teria uma reunião com Pahlavi:
“Não tenho certeza se seria apropriado, neste momento, fazer isso como presidente. Acho que devemos deixar que todos vão às ruas, e então veremos quem emerge”, disse Trump.
Falando em entrevista a Sean Hannity exibida na noite de quinta-feira (8) na Fox News, emissora alinhada à direita norte-americana, Trump sugeriu que o aiatolá Ali Khamenei, de 86 anos, pode estar cogitando deixar o país.
“Ele está procurando para onde ir”, disse Trump. “A situação está ficando muito ruim.”
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Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
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