Editorial: veículos de jornalismo se unem pela democracia

Assinado por 55 organizações associadas à Ajor, texto mostra posicionamento sobre a eleição de 2026

Editorial: veículos de jornalismo se unem pela democracia
Dezenas de organizações jornalísticas se posicionaram neste 2º turno de eleição presidencial / Imagem: Marija Zaric/Unsplash

A sociedade brasileira não pode pagar pra ver. E o jornalismo brasileiro não pode vacilar: é hora de adotar uma posição clara em defesa da democracia e contra o autoritarismo. Trata-se de uma situação que já vivemos antes. Em 2018, muitos acreditaram na ilusão de que o status quo político acabaria por moderar Jair Bolsonaro. Hoje, podemos afirmar com toda a certeza: foi o bolsonarismo que radicalizou o status quo. 

O governo de Jair Bolsonaro apresentou sinais documentados de ataques à  democracia: investidas contra a  credibilidade das eleições, hostilidade à imprensa, uso político das Forças Armadas e tolerância a manifestações antidemocráticas, contestação da alternância de poder e confronto aberto com o Judiciário. O fato de as instituições terem resistido não significa que esses sinais não existiram nem indica ausência de gravidade. Significa que os mecanismos de contenção funcionaram.

Não há nenhuma razão no horizonte para crer que seu filho teria uma relação melhor com o jornalismo e a democracia. O fato de não ser tão verborrágico e agressivo quanto o pai não faz com que seus atos se tornem menos graves. A promessa primordial de Flávio Bolsonaro é a libertação de Jair e a anulação do julgamento por tentativa de abolir o Estado democrático. Soma-se a isso a ameaça declarada de mudanças na Constituição.

Durante os 4 anos de bolsonarismo, o jornalismo conviveu com o horror da repressão. Agressões verbais promovidas quase diariamente pelo presidente da República contra os repórteres que cobrem o Planalto. Intimidações em todo o território nacional, decorrentes do clima de hostilidade que Bolsonaro promovia contra o exercício da profissão. 

Os números ajudam a dimensionar essa escalada de violência. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), foram registrados 1.442 casos de violência contra jornalistas e ataques à imprensa entre 2019 e 2022, uma média anual mais de 3 vezes superior à observada entre 2010 e 2018. Somente em 2022, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) documentou 557 alertas de violações à liberdade de imprensa, dos quais 41,6% envolveram ao menos um integrante da família Bolsonaro.

A mudança de cenário a partir de 2023 é igualmente reveladora: os registros da Abraji caíram para 330 naquele ano e 204 em 2025, enquanto o Brasil passou da 110ª posição no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, da Repórteres Sem Fronteiras, em 2022, para a 52ª em 2026.

A defesa do jornalismo, porém, vai além do interesse de uma categoria profissional: diz respeito ao direito de toda a população à informação e à própria qualidade da democracia. Esse direito depende de um ambiente de informação íntegro, onde  informações confiáveis, verificáveis e plurais possam circular livremente.

O jornalismo tem papel essencial na construção desse ambiente, ao investigar casos de corrupção, abusos de poder e violações de direitos, produzindo evidências que ajudam a sociedade a compreender a realidade, cobrar responsabilidades e dar visibilidade a populações frequentemente negligenciadas.

Por isso, ataques sistemáticos à imprensa não atingem apenas jornalistas e veículos de comunicação. Ao intimidar profissionais e desacreditar suas investigações, comprometem o acesso da população a informações de interesse público e enfraquecem a capacidade da sociedade de fiscalizar quem governa e exigir a responsabilização de quem viola a lei.

O que aconteceu durante o governo Jair Bolsonaro tem um longo histórico. Em 1999, ele declarou que, se fosse presidente, fecharia o Congresso Nacional e daria um golpe de Estado. Em 2016, homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador da ditadura militar. 

Já na Presidência, participou, em 2020, de uma manifestação que defendia a intervenção militar e o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2022, reuniu embaixadores estrangeiros para lançar acusações sem provas contra o sistema eleitoral brasileiro, episódio que levou à sua inelegibilidade. 

A escalada culminou em um plano de assassinato de autoridades – nomeadamente, Luiz Inácio Lula da Silva, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes –, na tentativa de impedir a alternância de poder após a derrota nas urnas, pela qual Bolsonaro foi condenado pelo STF em 2025. 

Esse histórico é indispensável para avaliar as propostas de Flávio Bolsonaro. O senador também tem manifestações próprias que merecem atenção. Em livro publicado em 2017, negou a existência do golpe militar de 1964 e elogiou Ustra. Em julho de 2026, repetiu diante de diplomatas estrangeiros informações falsas sobre a origem das urnas eletrônicas brasileiras. 

Não é possível ignorar a trajetória de um grupo político que questionou a legitimidade das eleições, confrontou instituições responsáveis por fiscalizar o poder e agora pretende modificar algumas dessas mesmas instituições. 

O risco não se resume a um novo golpe de Estado: está também na possibilidade de enfraquecimento progressivo dos mecanismos que impedem a concentração de poder e garantem a responsabilização de governantes.

A população depende de uma imprensa livre para fiscalizar o poder. E uma imprensa livre depende de instituições capazes de assegurar direitos, garantir acesso a informações públicas, proteger profissionais contra intimidações e responsabilizar quem tenta impedir seu trabalho.

A experiência do governo Bolsonaro mostrou como a hostilidade promovida pelo presidente pode repercutir sobre a liberdade de imprensa. Se os mecanismos de controle do poder também forem enfraquecidos, tornam-se mais frágeis as condições para que jornalistas investiguem e publiquem informações de interesse público com independência. É assim que ataques ao jornalismo, enfraquecimento institucional e erosão democrática podem se alimentar mutuamente, abrindo caminho para o avanço do autoritarismo.

Nesse sentido, este editorial é também um apelo a veículos de comunicação e jornalistas para que reflitam sobre sua responsabilidade neste momento histórico. Não se trata de defender governos, partidos ou tribunais, mas de reconhecer que a liberdade de imprensa, a independência das instituições e o direito da sociedade à informação são inseparáveis.

Em nome de um futuro viável, o Brasil precisa preservar sua democracia, com todas as suas imperfeições, contradições e conquistas. Afinal, a história mostra que o autoritarismo pode chegar ao poder pelas urnas, mas seus efeitos sobre os direitos e as liberdades podem levar décadas para serem revertidos.

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