Disparos de Israel atingem jornalistas e crianças em um dos dias mais mortais em Gaza desde o cessar-fogo
Existe um acordo de cessar-fogo vigente desde outubro de 2025, mas Israel continua com assassinatos em série
*Por Samy Magdy
O fato principal
As Forças de Israel mataram nesta quarta-feira (21.jan.2026) ao menos 11 palestinos em Gaza, incluindo 2 meninos de 13 anos, 3 jornalistas e 1 mulher, segundo hospitais, em um dos dias mais mortais do território desde que o cessar-fogo entre o Hamas e Israel entrou em vigor em outubro de 2025.
As mortes dos meninos
Os 2 meninos foram mortos em situações separadas. Numa, um garoto de 13 anos, seu pai e um homem de 22 anos foram atingidos por drones israelenses no lado leste do campo de refugiados de Bureij, segundo autoridades do Hospital Mártires de Al-Aqsa, na cidade central de Deir al-Balah, onde os corpos foram levados. Não ficou claro de imediato se os 3 haviam cruzado para áreas controladas por Israel.
O outro menino de 13 anos foi baleado por tropas na cidade oriental de Bani Suheila, informou o Hospital Nasser após receber o corpo. Em um vídeo divulgado online, o pai de Moatsem al-Sharafy aparece chorando sobre o corpo do filho.
A mãe do garoto, Safaa al-Sharafy, disse à Associated Press que ele havia saído para juntar lenha para que ela pudesse cozinhar.
“Ele saiu de manhã, com fome”, contou ela, com lágrimas escorrendo pelo rosto. “Disse que iria rápido e voltaria.”
O assassinato dos jornalistas

Mais tarde, na mesma quarta-feira (21), um ataque israelense atingiu um veículo que transportava 3 jornalistas palestinos que filmavam um novo campo de deslocados administrado por um comitê do governo egípcio na região de Netzarim, disse Mohammed Mansour, porta-voz do comitê.
Mansour afirmou que os jornalistas documentavam o trabalho do comitê e que o ataque ocorreu a cerca de 5 quilômetros da área controlada por Israel. Ele disse que o veículo era conhecido pelo exército israelense como pertencente ao comitê.
O exército israelense afirmou ter identificado "suspeitos" que operavam um drone que representaria uma ameaça às suas tropas.
Imagens em vídeo mostraram o veículo carbonizado e soltando fumaça à beira da estrada.

Um dos jornalistas mortos, Abdul Raouf Shaat, era colaborador regular da AFP (Agence France-Presse). A agência, no entanto, disse que ele não estava em missão de trabalho naquele momento.
“Abdul era muito querido pela equipe da AFP que cobre Gaza. Eles o lembram como um colega bondoso”, disse a AFP num comunicado em que pede uma investigação completa sobre sua morte.
Mais de 200 jornalistas mortos

Segundo o CPJ (Comitê para a Proteção dos Jornalistas), mais de 200 jornalistas e trabalhadores de mídia palestinos foram mortos em Gaza desde o início dos bombardeios israelenses em 2023.
Quase 5 meses após o ataque a um hospital que matou a jornalista visual Mariam Dagga, que trabalhava para a AP (Associated Press) e outras organizações de notícias, e outros 4 jornalistas, o exército de Israel ainda diz que continua investigando o caso.
Além de raros tours supervisionados, Israel tem impedido a entrada de jornalistas internacionais para cobrir a guerra. As organizações de notícias dependem amplamente de jornalistas palestinos em Gaza –e também de moradores– para mostrar o que está acontecendo.
Baleada em área que não está sob comando de Israel
Autoridades do Hospital Nasser também informaram nesta quarta-feira que receberam o corpo de uma mulher palestina baleada por tropas israelenses na área de Muwasi, na cidade de Khan Younis, no sul, que não está sob controle militar.
Em outro ataque, 3 irmãos foram mortos por disparos de um tanque no campo de Bureij, de acordo com o Hospital Mártires de Al-Aqsa.
Mais de 470 palestinos foram mortos por disparos israelenses desde que o cessar-fogo entrou em vigor, em 10 de outubro, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.
Destes 470, ao menos 77 foram mortos por tiros de Israel perto de uma linha de cessar-fogo que divide o território entre as áreas controladas por Israel e a maior parte da população palestina de Gaza, informou o ministério.
O ministério, que faz parte do governo liderado pelo Hamas, mantém registros detalhados de vítimas, considerados confiáveis por agências da ONU e especialistas independentes.
Israel atinge mais alvos no Líbano

A força aérea israelense ainda realizou vários ataques nesta quarta-feira (21) no sul do Líbano. Segundo Israel, os locais atingidos eram usados pelo grupo militante Hezbollah para armazenar armas.
Pontos na fronteira com a Síria também foram alvo de bombardeios israelenses. Novamente de acordo com Israel, os locais serviriam de abrigo para armamentos que estavam sendo contrabandeados.
O Ministério da Saúde do Líbano informou que 19 pessoas, incluindo jornalistas, ficaram feridas na vila meridional de Qennarit, ao sul da cidade portuária de Sidon.
Autoridades libanesas condenaram os ataques. O presidente Joseph Aoun chamou-os de “agressão sistemática”.
Além disso, ataques de drones contra carros nas vilas de Bazouriyeh e Zahrani mataram duas pessoas, segundo a Agência Nacional de Notícias estatal.
Os ataques foram os mais recentes de uma série quase diária de ações militares israelenses desde que um cessar-fogo, há mais de 1 ano, encerrou a guerra Israel-Hezbollah de 14 meses.
O acordo incluía uma promessa do Líbano de desarmar grupos militantes. Israel disse que os termos não foram cumpridos.
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*O jornalista da Associated Press Bassem Mroue, em Beirute, contribuiu para este relatório.
Autor
Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

