Dias após uma eleição contestada, exército de Uganda está em busca do líder da oposição, Bobi Wine

Em vídeo postado no X, líder da oposição provocou chefe do Exército, que é filho do presidente do país

Dias após uma eleição contestada, exército de Uganda está em busca do líder da oposição, Bobi Wine
Um apoiador do candidato presidencial da oposição de Uganda, Robert Kyagulanyi Ssentamu, conhecido como Bobi Wine, segura um pôster de campanha em Kampala, Uganda, terça-feira, 13 de janeiro de 2026 / Imagem: AP Photo/Hajarah Nalwadda
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*Por Rodney Muhumuza

O fato principal

Onde está Bobi Wine? Em um vídeo recente compartilhado enquanto está escondido, o líder da oposição de Uganda caminha por um cemitério familiar no centro do país, provocando o chefe do Exército que não conseguiu encontrá-lo após sua derrota na eleição presidencial.

“Todo o Exército está procurando uma única pessoa. Já se passaram quase 10 dias e eles ainda não conseguiram me achar. Isso significa que eles não são tão fortes quanto dizem ser”, disse Wine em um vídeo postado no X na segunda-feira.

Contexto

Wine, cujo nome verdadeiro é Kyagulanyi Ssentamu, é um músico que virou político. Tem 43 anos e vem escapando de uma caçada militar há mais de uma semana, enfurecendo o general Muhoozi Kainerugaba –chefe do Exército e filho do presidente. A rivalidade entre os 2 se tornou pública.

Wine, o opositor, entrou na clandestinidade logo após a contestada eleição presidencial de Uganda, em 15 de janeiro. Ele rejeitou os resultados oficiais, segundo os quais o presidente Yoweri Museveni foi eleito para o seu 7º mandato, com 71,6% dos votos.

A votação foi marcada por um corte de internet e pela falha de kits biométricos de identificação de eleitores, projetados para impedir fraude nas urnas. Agora, Wine pede a seus seguidores que façam tudo o que for legalmente possível para mostrar as fraquezas do governo.

“Isso significa que você, como ugandense, pode fazer o que for possível sem quebrar a lei. Sim, eles nos chamam de fora da lei, mas não somos criminosos”, acrescentou ele no mesmo vídeo que publicou.

Disputa entre Wine e o chefe do Exército

O tenente-general Muhoozi Kainerugaba, à direita, filho do presidente de Uganda, Yoweri Museveni, fala com o procurador-geral Kiryowa Kiwanuka, à esquerda, em uma cerimônia de "ação de graças" em Entebbe, Uganda, em 7 de maio de 2022 / Imagem: AP Photo/Hajarah Nalwadda, Arquivo

Soldados ugandenses invadiram a casa de Wine no dia seguinte à votação de 15 de janeiro, mas o líder da oposição já havia se escondido, temendo por sua vida após semanas de campanha usando capacete e colete à prova de balas em comícios que foram constantemente vigiados pelas forças de segurança.

A caçada a Wine é liderada por Kainerugaba, o herdeiro do presidente, que respondeu às provocações de Wine chamando-o de covarde, “babuíno” e “terrorista”. Kainerugaba tem o hábito, que já dura anos, de postar tuítes ofensivos, os quais frequentemente apaga depois.

Ele afirmou no X que Wine e outros líderes do partido dele, o National Unity Platform, são procurados por crimes não especificados.

No entanto, a polícia de Uganda e o porta-voz do governo, Chris Baryomunsi, dizem que Wine não é procurado e é livre para retornar à sua família.

Wine afirmou, em sua mensagem mais recente aos seguidores, que havia ido à sua terra natal “para buscar um pouco de amor”.

“Mais um dia escondido. Mais um dia de injustiça. Como sempre afirmei, em um país governado por uma família, a família no poder está sempre acima da lei”, disse.

Ugandenses temem agitação

O presidente ugandense Yoweri Museveni discursa durante as comemorações do 60º aniversário da independência, em Kololo, Uganda, no domingo, 9 de outubro de 2022 / Imagem: AP/Hajarah Nalwadda, Arquivo

As trocas de acusações entre Wine e Kainerugaba aumentaram as tensões após a eleição. Ugandenses temem que um ataque a Wine possa desencadear protestos.

Wine, o mais proeminente entre os 7 candidatos que concorreram contra Museveni, tem grande apoio entre jovens urbanos –muitos desempregados ou irritados com o governo por causa da corrupção oficial e da falta de oportunidades econômicas. Muitos desejam mudança política após quatro décadas sob o mesmo líder.

A oposição ficou ainda mais indignada após uma incursão em 23 de janeiro, durante a qual a esposa de Wine, Barbara Kyagulanyi, afirmou ter sido agredida por soldados na casa do casal, nos arredores de Kampala, capital do país, o que a levou a ser hospitalizada por ansiedade e machucados.

Kyagulanyi, conhecida carinhosamente como Barbie, contou a repórteres reunidos ao redor de seu leito hospitalar que se recusou a cooperar com dezenas de homens uniformizados que exigiam saber onde estava Wine.

Ela descreveu “um enxame de homens” mascarados que quebraram portas e janelas para alcançá-la e a atacaram, levantando-a do chão pelo pijama. Um dos invasores bateu sua cabeça contra uma coluna, exigindo a senha de um celular, disse ela.

Kainerugaba assumiu a responsabilidade pela incursão, mas nega que Kyagulanyi tenha sido agredida.

“Meus soldados não bateram em Barbie. Estamos procurando o marido covarde dela, não ela”, escreveu no X.

Museveni servirá 7º mandato

Museveni, o líder de 81 anos que é um antigo aliado dos Estados Unidos, acusou a oposição de tentar incitar violência durante a votação. Ele cumprirá agora um 7º mandato, que o aproxima de completar 5 décadas no poder. É o 3º líder africano há mais tempo no poder.

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Seus apoiadores o elogiam pela relativa paz e estabilidade que fizeram de Uganda um refúgio para centenas de milhares de pessoas que fugiram da violência em outras partes da África.

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Associated Press
Associated Press

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