Desmatamento na Amazônia cai para o nível mais baixo da história

Apesar dos avanços, a Amazônia enfrenta ameaças – uma delas, decorrente de uma possível mudança na Presidência

Desmatamento na Amazônia cai para o nível mais baixo da história
Um helicóptero do órgão ambiental brasileiro sobrevoa uma área da floresta amazônica durante uma operação de combate a incêndios florestais em Autazes, no estado do Amazonas, na quinta-feira, 15 de outubro de 2026 / Imagem: AP/Edmar Barros
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*Por Gabriela Sá Pessoa

O fato principal

O governo brasileiro anunciou, nesta sexta-feira (16.out.2026), que o desmatamento anual na Amazônia caiu para o nível mais baixo desde o início dos registros, em 1988. Dados oficiais de satélite mostraram que a floresta perdeu 3.335 quilômetros quadrados entre agosto de 2025 e julho de 2026 — período utilizado para o cálculo da taxa anual.

Os dados destacam o sucesso dos esforços do governo federal, sob a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), para conter o desmatamento na Amazônia, revertendo o aumento registrado durante o governo de seu antecessor, o presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro (PL).

Durante a presidência de Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022, o desmatamento na Amazônia cresceu cerca de 60%, com mais de 45.000 quilômetros quadrados de área desmatada, segundo dados oficiais. Sob o governo Lula, o desmatamento caiu 71% desde 2023.

Uma das primeiras medidas de Lula após assumir o cargo, em janeiro de 2023 — em seu 3º mandato, não consecutivo —, foi retomar o PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal). Lançado originalmente em 2004, em seu 1º governo, o plano foi deixado de lado na gestão Bolsonaro.

Lula trouxe de volta os gestores ambientais que elaboraram o plano duas décadas antes, nomeando a defensora do meio ambiente Marina Silva — que chefiou o Ministério do Meio Ambiente até renunciar, em abril, para concorrer ao Senado — e João Paulo Capobianco, seu antigo vice-ministro e atual ministro, para ajudar na sua execução.

Como o governo conteve o desmatamento

O plano baseia-se em 4 pilares:

  1. Fortalecimento do monitoramento e da fiscalização;
  2. Promoção de uma economia sustentável;
  3. Gerir áreas protegidas e definir como as florestas públicas sem destinação específica devem ser utilizadas; além de
  4. Empregar regulamentações e incentivos financeiros para conter o desmatamento.

As medidas incluíram o restabelecimento de sanções para o desmatamento ilegal detectado por satélites — uma prática considerada a ferramenta mais eficaz para conter o desmatamento, mas que havia sido suspensa durante o governo Bolsonaro.

O governo também propôs impedir que propriedades com desmatamento ilegal obtenham empréstimos bancários e destinou mais recursos a municípios prioritários na Amazônia que apresentaram redução na perda florestal.

Além disso, foram financiadas ações de combate a crimes ambientais e o desenvolvimento de linhas de crédito subsidiadas para negócios sustentáveis ​​na região amazônica.

“A fórmula é sempre a mesma, e ela funciona. Vimos isso dar certo no Brasil anos atrás e estamos vendo novamente agora: determinação, fiscalização em campo, combate ao crime e aplicação da lei”, afirmou Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, uma rede brasileira de organizações ambientais.

Astrini acrescentou que as taxas de desmatamento divulgadas na sexta-feira demonstram que o compromisso do Brasil de zerar o desmatamento até 2030 é viável, sem comprometer a economia do país.

“O setor agropecuário tem registrado recordes de produção e exportação, ao mesmo tempo em que o desmatamento cai. Os números de hoje refutam a falsa narrativa de que a proteção ambiental freia o desenvolvimento do Brasil”, completou.

O desmatamento e outras mudanças no uso da terra constituem a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa no Brasil, os quais impulsionam o aquecimento global. O cenário é particularmente crítico na Amazônia, que armazena grandes quantidades de dióxido de carbono e gera umidade atmosférica fundamental para a regulação do clima muito além das fronteiras da América do Sul.

Novo presidente define o futuro da Amazônia

Apesar dos avanços no combate ao desmatamento, a Amazônia enfrenta ameaças decorrentes das mudanças climáticas, de propostas legislativas e de uma possível mudança na Presidência.

A degradação causada por incêndios florestais, extração de madeira e secas afeta cerca de 40% da Amazônia e, nos últimos anos, superou o desmatamento por corte raso. Um fenômeno El Niño intenso — aquecimento periódico das águas do Pacífico equatorial — pode agravar essas ameaças em 2026 e 2027, ao trazer condições mais quentes e secas que favorecem a propagação de incêndios.

O número de focos de incêndio em todo o bioma estava próximo de mínimas históricas este ano, mas triplicou desde 4 de outubro, data em que os brasileiros votaram no 1º turno das eleições nacionais.

As autoridades investigam se os incêndios foram provocados deliberadamente por motivos políticos, perto do 2º turno da eleição presidencial, que ocorre este mês.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, obteve 47% dos votos, enquanto Lula recebeu 45%. Ambos disputam o segundo turno no dia 25 de outubro.

Os candidatos apresentam visões bastante diferentes para a floresta tropical. Pesquisadores em clima e conservação alertam que uma vitória de Bolsonaro deve reverter as políticas de combate ao desmatamento.

Flávio Bolsonaro prometeu acabar com o desmatamento ilegal até 2029 — um ano antes da meta atual estabelecida pelo Brasil.

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Nota do Correio Sabiá: Flávio Bolsonaro pretende regularizar propriedades na região, o que deve transformar desmatamento antes considerado ilegal numa forma legal de desmatar.

A proposta de Lula vai além: alcançar desmatamento líquido zero até 2030, com ações de restauração compensando toda a perda florestal, seja ela legal ou ilegal.

Cristiane Mazzetti, do Greenpeace Brasil, afirmou que a taxa de desmatamento — que atingiu um patamar historicamente baixo — reflete políticas eficazes que podem estar em risco, a depender de quem vencer a eleição presidencial.

“O Congresso tem trabalhado para enfraquecer, retardar e desmantelar leis e regulamentações que ajudam a proteger o meio ambiente”, disse ela.
“A próxima legislatura será ainda mais hostil à proteção ambiental e, dependendo da próxima administração federal, o risco de retrocessos e de um aumento acentuado nas taxas de desmatamento será muito maior”, acrescentou.

A ex-ministra Marina Silva declarou, na sexta-feira, que a redução do desmatamento foi uma “conquista histórica” para o povo brasileiro e que o resultado das eleições será fundamental para manter esse avanço.

“O governo de Jair Bolsonaro tratou a proteção ambiental e as mudanças climáticas com negacionismo e um desmantelamento abrangente das políticas ambientais. Flávio herdou essas visões e práticas e pretende perpetuá-las, como indicou em diversas ocasiões”, disse ela.
“Aqueles que negam a existência do problema certamente não farão nada para enfrentá-lo.”

Flávio Bolsonaro negou as mudanças climáticas e não detalhou planos para proteger a Amazônia ou apoiar o financiamento voltado para as florestas. Defendeu a "modernização" das leis ambientais, o que muitos ambientalistas interpretam como um enfraquecimento dessas normas. No entanto, sua campanha diz:

“Flávio Bolsonaro é um defensor do meio ambiente e daqueles que preservam as florestas em pé e os rios limpos.”

Autor

Associated Press
Associated Press

Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

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