Delcy Rodríguez assume como presidente interina da Venezuela após captura de Maduro

Vice-presidente estava no cargo desde 2018, supervisionando boa parte da economia venezuelana

Delcy Rodríguez assume como presidente interina da Venezuela após captura de Maduro
A vice-presidente Delcy Rodríguez, à esquerda, sorri para o ministro da Defesa venezuelano Padrino López enquanto seguem a rota que o corpo do falecido presidente Hugo Chávez percorreu até seu local de descanso final, durante as atividades marcando o 10º aniversário da morte de Chávez, em Caracas, Venezuela, 15 de março de 2023 / Imagem: AP/Matias Delacroix, Arquivo
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*Por Megan Janetsky e Isabel Debre / Associated Press

O fato principal

Enquanto a incerteza ferve na Venezuela, a presidente interina Delcy Rodríguez assumiu o lugar de seu aliado presidente Nicolás Maduro, capturado pelos Estados Unidos em uma operação militar noturna, e ofereceu “colaborar” com a administração Trump em um possível terremoto nas relações entre os governos adversários.

Rodríguez serviu como vice-presidente de Maduro desde 2018, supervisionando grande parte da economia venezuelana, dependente do petróleo, e seu temido serviço de inteligência, e era a próxima na linha presidencial de sucessão.

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Ela faz parte de um grupo de altos funcionários da administração Maduro que agora parece controlar a Venezuela, mesmo enquanto o presidente dos EUA Donald Trump e outros oficiais afirmam que pressionarão o governo para se alinhar à visão deles para a nação rica em petróleo.

No sábado (3.jan), o Supremo Tribunal da Venezuela ordenou que ela assumisse o papel de presidente interina, e a líder foi apoiada pelas Forças Armadas venezuelanas.

A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, participa de conversas com o ministro das Relações Exteriores russo durante reunião em Moscou, 1º de março de 2019 / Imagem: AP/Pavel Golovkin, Arquivo

Aliada ou adversária

Rodríguez, advogada e política de 56 anos, teve uma longa carreira representando a revolução iniciada pelo falecido Hugo Chávez no palco internacional. Não estava claro se a líder se aproximaria da administração Trump ou seguiria a mesma linha adversarial de seu antecessor.

Sua ascensão como líder interina do país sul-americano foi uma surpresa na manhã de sábado, quando Trump anunciou que o secretário de Estado Marco Rubio havia estado em comunicação com Rodríguez e que a líder venezuelana foi “graciosa” e trabalharia com o governo americano. Rubio disse que Rodríguez era alguém com quem a administração poderia trabalhar, diferente de Maduro.

Mas em pronunciamento televisionado, Rodríguez não deu indício de que cooperaria com Trump, referindo-se ao governo dele como “extremista” e mantendo que Maduro era o legítimo líder da Venezuela.

“O que estão fazendo com a Venezuela é uma atrocidade que viola o direito internacional”, disse Rodríguez, cercada por altos funcionários civis e líderes militares.

Trump alertou no domingo que, se Rodríguez não se alinhar, “ela vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior que o de Maduro”. Ele acrescentou que queria que ela fornecesse “acesso total”, desde instalações petrolíferas até infraestrutura básica como estradas, para que possam ser reconstruídas.

Os comentários de Trump também vieram após Rubio afirmar em entrevistas na TV no domingo que não via Rodríguez e seu governo como “legítimos” porque, segundo ele, o país nunca realizou eleições livres e justas.

No domingo, em declarações postadas em seu Instagram, ela adotou uma mudança drástica de tom em mensagem conciliatória, dizendo esperar construir “relações respeitosas” com Trump.

“Convidamos o governo dos EUA a colaborar conosco em uma agenda de cooperação orientada ao desenvolvimento compartilhado no marco do direito internacional para fortalecer a convivência comunitária duradoura”, escreveu.

Ascensão à presidente interina

Advogada formada na Grã-Bretanha e na França, a presidente interina e seu irmão, Jorge Rodríguez, chefe da Assembleia Nacional controlada por Maduro, possuem credenciais de esquerda impecáveis, forjadas na tragédia. O pai deles foi um líder socialista preso por seu envolvimento no sequestro do empresário americano William Niehous em 1976 e depois morreu sob custódia policial.

Ao contrário de muitos no círculo íntimo de Maduro, os irmãos Rodríguez evitaram indiciamentos criminais nos EUA, embora a presidente interina tenha enfrentado sanções americanas durante o primeiro mandato de Trump por seu papel em minar a democracia venezuelana.

Rodríguez ocupou vários cargos de nível inferior no governo Chávez, mas ganhou proeminência trabalhando sob Maduro a ponto de ser vista como sua sucessora. Ela serviu como ministra da Economia, chanceler, ministra do Petróleo e outros cargos, ajudando a estabilizar a economia venezuelana, endêmica em crises, após anos de inflação galopante e turbulência.

Rodríguez desenvolveu fortes laços com republicanos da indústria petrolífera e de Wall Street que se opunham à ideia de mudança de regime liderada pelos EUA. A presidente interina também presidiu uma assembleia promovida por Maduro em resposta a protestos de rua em 2017, destinada a neutralizar a legislatura de maioria oposicionista.

Ela desfruta de uma relação próxima com o exército, que há muito atua como árbitro de disputas políticas na Venezuela, disse Ronal Rodríguez, porta-voz do Observatório Venezuela da Universidade Rosario, em Bogotá, Colômbia.

“Ela tem uma relação muito particular com o poder”, disse ele. “Desenvolveu laços muito fortes com elementos das forças armadas e conseguiu estabelecer linhas de diálogo com eles, em grande parte em bases transacionais.”

Futuro no poder

Não está claro quanto tempo Rodríguez manterá o poder ou quão de perto ela trabalhará com a administração Trump.

Geoff Ramsey, pesquisador sênior não residente do Atlantic Council, instituto de pesquisa de Washington, disse que o tom inicialmente firme de Rodríguez com a administração Trump pode ter sido uma tentativa de “salvar a face”. Outros notaram que a captura de Maduro exigiu algum nível de colaboração dentro do governo venezuelano.

“Ela não pode exatamente esperar marcar pontos com seus pares revolucionários se se apresentar como marionete dos interesses americanos”, disse Ramsey.

A Constituição venezuelana exige eleição em 30 dias sempre que o presidente se tornar “permanentemente indisponível” para servir. Motivos listados incluem morte, renúncia, destituição do cargo ou “abandono” de deveres conforme declarado pela Assembleia Nacional.

Esse cronograma eleitoral foi rigorosamente seguido quando o antecessor de Maduro, Chávez, morreu de câncer em 2013. No entanto, o Supremo leal ao governo, em sua decisão de sábado, citou outra disposição da carta magna ao declarar a ausência de Maduro como “temporária”.

Nesse cenário, não há exigência de eleição. Em vez disso, a vice-presidente, cargo não eleito, assume por até 90 dias — período que pode ser estendido por 6 meses com voto da Assembleia Nacional.

Ao entregar poder temporário a Rodríguez, o Supremo não mencionou o limite de 180 dias, levando alguns a especular que ela poderia tentar permanecer no poder por mais tempo enquanto busca unir as facções dísparas do partido socialista governista e protegê-lo do que certamente seria um duro desafio eleitoral.


*Janetsky reportou de Cidade do México e Debre de Buenos Aires, Argentina. Colaboraram com esta reportagem os jornalistas Joshua Goodman, de Miami; Darlene Superville, a bordo do Air Force One; e Jorge Rueda, de Caracas, Venezuela.

Autor

Associated Press
Associated Press

Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

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