Cuba enfrenta futuro incerto após EUA derrubarem líder venezuelano Maduro
Governos cubano e venezuelano são tão próximos que, frequentemente, agentes de segurança de Cuba frequentemente serviam como guarda-costas do presidente da Venezuela
*Por Dánica Coto e Andrea Rodríguez / Associated Press
O essencial
Autoridades de Cuba hastearam bandeiras a meio mastro antes do amanhecer na segunda-feira (5.jan.2026) para lamentar 32 oficiais de segurança que dizem terem sido mortos no ataque de sábado (3.jan) dos EUA na Venezuela, o aliado mais próximo da ilha, enquanto moradores cubanos se perguntam o que a captura do presidente Nicolás Maduro significa para seu futuro.
Este conteúdo é resultado de uma parceria anual entre o Correio Sabiá e a Associated Press (AP) –uma das maiores agências globais de notícias, com correspondentes no mundo todo. À sua disposição, traduzido para o português.
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Os 2 governos são tão próximos que soldados e agentes de segurança cubanos frequentemente serviam como guarda-costas do presidente venezuelano, e o petróleo da Venezuela manteve a ilha economicamente debilitada funcionando por anos. Autoridades cubanas disseram no fim de semana que os 32 foram mortos no ataque surpresa "após feroz resistência em combate direto contra os atacantes, ou como resultado do bombardeio das instalações".
A administração Trump avisou abertamente que derrubar Maduro ajudará a avançar outro objetivo de décadas: golpear o governo cubano. Cortar Cuba da Venezuela poderia ter consequências desastrosas para seus líderes, que no sábado conclamaram a comunidade internacional a se opor ao "terrorismo de Estado".
No sábado, Trump disse que a economia cubana debilitada será ainda mais atingida pela queda de Maduro.
"Ela está caindo", disse Trump sobre Cuba. "Está caindo por nocaute".

Perda do principal apoiador
Muitos observadores dizem que Cuba, ilha de cerca de 10 milhões de pessoas, exerceu grau notável de influência sobre a Venezuela, nação rica em petróleo com 3 vezes mais habitantes. Ao mesmo tempo, cubanos há muito sofrem com blecautes constantes e escassez de alimentos básicos. E após o ataque, acordaram com a possibilidade antes inimaginável de um futuro ainda mais sombrio.
"Não posso falar. Não tenho palavras", disse Berta Luz Sierra Molina, de 75 anos, soluçando e colocando a mão sobre o rosto.
Mesmo com 63 anos e velha demais para se juntar ao exército cubano, Regina Méndez disse que "temos que permanecer fortes".
"Dê-me um fuzil, e eu vou lutar", disse Méndez.
O governo Maduro enviava em média 35 mil barris de petróleo por dia nos últimos três meses, cerca de um quarto da demanda total, disse Jorge Piñón, especialista em energia cubana no Instituto de Energia da Universidade do Texas em Austin.
"A pergunta à qual não temos resposta, que é crítica: os EUA vão permitir que a Venezuela continue fornecendo petróleo a Cuba?", disse ele.
Piñón observou que o México já forneceu 22 mil barris de petróleo por dia a Cuba antes de cair para 7 mil após o secretário de Estado Marco Rubio visitar Cidade do México no início de setembro.
"Não vejo o México entrando agora", disse Piñón. "O governo dos EUA ficaria louco."
Ricardo Torres, economista cubano na American University em Washington, disse que "os blecautes têm sido significativos, e isso com a Venezuela ainda enviando algum petróleo".
"Imagine um futuro agora no curto prazo perdendo isso", disse ele. "É uma catástrofe."
Piñón observou que Cuba não tem dinheiro para comprar petróleo no mercado internacional.
"O único aliado que lhes resta com petróleo é a Rússia", disse ele, observando que ela envia cerca de 2 milhões de barris por ano a Cuba.
"A Rússia tem capacidade para preencher a lacuna. Têm compromisso político, ou desejo político para fazê-lo? Não sei", afirmou.
Torres também questionou se a Rússia estenderia a mão.
"Interferir em Cuba poderia comprometer sua negociação com os EUA sobre a Ucrânia. Por que fariam isso? A Ucrânia é muito mais importante", disse.
Torres disse que Cuba deveria abrir suas portas ao setor privado e ao mercado e reduzir seu setor público, medidas que poderiam levar a China a intervir e ajudar Cuba.
"Eles têm alternativa? Não acho que tenham", disse.
Reconstrução da indústria petrolífera da Venezuela
Na segunda-feira, Trump disse à NBC News em entrevista que o governo dos EUA poderia reembolsar empresas petrolíferas fazendo investimentos na Venezuela para manter e aumentar a produção de petróleo naquele país.
Ele sugeriu que a necessária reconstrução da infraestrutura negligenciada do país para extração e envio de petróleo poderia acontecer em menos de 18 meses.
"Acho que podemos fazer isso em menos tempo que isso, mas será muito dinheiro", disse Trump. "Uma quantia tremenda de dinheiro terá que ser gasta e as empresas petrolíferas gastarão, e depois serão reembolsadas por nós ou através de receita."
Ainda permanece incerto quão rapidamente o investimento poderia ocorrer dado as incertezas sobre a estabilidade política da Venezuela e os bilhões de dólares necessários para serem gastos.
A Venezuela produz em média cerca de 1,1 milhão de barris de petróleo por dia, queda dos 3,5 milhões de barris por dia produzidos em 1999 antes de a tomada de controle governamental da maioria dos interesses petrolíferos e uma combinação de corrupção, má gestão e sanções econômicas dos EUA levarem a produção a cair.
*Coto reportou de San Juan, Porto Rico. Colaboraram com esta reportagem os jornalistas Milexsy Durán, em Havana; Isabel DeBre, em Buenos Aires; e Joshua Boak, em Washington, D.C.
Autor
Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
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