Como uma família deslocada em Gaza celebra o Ramadã
Ramadã é o mês mais sagrado do calendário islâmico. Em meio aos bombardeios israelenses, faltam insumos para a celebração.
*Por Wafaa Shurafa e Mariam Fam
O fato principal
Waleed al Zamli recordou com saudade as alegrias e tradições do 1º dia do Ramadã, antes que a guerra entre Israel e o Hamas alterasse drasticamente sua vida: lanternas para as crianças, doces, pratos especiais.
“Antes da guerra, comemorávamos o 1º dia com alegria”, disse o pai de 11 filhos, atualmente alocado em Muwasi, uma área repleta de tendas que abrigam palestinos forçados a fugir de suas casas por causa da ofensiva militar israelense.

"Não é mais assim", acrescentou Waleed.
“Este ano, não há alegria”, disse ele.
Waleed al Zamli disse que é triste e doloroso não poder sustentar sua família, que agora luta para sobreviver em meio ao deslocamento. Ele perdeu o emprego depois que a loja onde trabalhava foi destruída.
Por isso, para o 1º “iftar” do Ramadã, sua esposa buscou refeições na quarta-feira em uma cozinha comunitária da qual a família depende muito. Ela preparou uma sopa para acompanhar.
Dificuldades e perdas abalam o espírito do Ramadã
O Ramadã chegou a Gaza sob um frágil acordo de cessar-fogo, mas muitos palestinos dizem que o espírito tipicamente festivo do mês está ausente, enquanto lutam contra as dificuldades do dia a dia, o luto e as perdas da guerra.
Algumas dessas dificuldades ficaram evidentes na cozinha comunitária, onde dezenas de pessoas se aglomeravam, muitas com os braços estendidos, disputando um lugar e segurando panelas vazias. Entre elas, crianças, mulheres e idosos.

Durante o Ramadã, os muçulmanos praticantes jejuam diariamente do amanhecer ao pôr do sol.
Em circunstâncias normais, o mês costuma reunir famílias e amigos para quebrar o jejum em alegres confraternizações. No entanto, as circunstâncias em Gaza estão longe da normalidade.
A ofensiva militar de Israel matou mais de 72.000 palestinos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, e causou destruição generalizada e o deslocamento da maioria dos moradores do território.
Israel lançou a ofensiva depois que militantes liderados pelo Hamas mataram cerca de 1.200 pessoas, a maioria civis, e fizeram outros 251 reféns em seu ataque de 7 de outubro de 2023.
Para al Zamli, o maior desafio neste Ramadã é garantir comida para sua família. Ele disse que recebeu ajuda limitada. Alimentos como carne e aves estão mais caros do que antes da guerra, disse ele. Sem renda, muitos itens estão fora de seu alcance.
“As crianças querem se sentir felizes como autras crianças se sentem. Vestir-se bem e comer algo saudável e especial”, disse ele.
A pressão financeira pode ser especialmente notada durante o Ramadã. Normalmente, muitas pessoas lotam os mercados para estocar alimentos básicos e comprar decoração e outros suprimentos.
A comida pode desempenhar um papel central no Ramadã, já que o jejum diário dá lugar a refeições nutritivas e, para alguns, elaboradas, como o iftar.
Os muçulmanos também fazem uma refeição antes do amanhecer, conhecida como “suhoor”, para nutrir seus corpos antes do jejum.
Enquanto moradores de Gaza visitavam os mercados esta semana, alguns lamentavam como as dificuldades econômicas lançavam uma sombra sobre o mês.
Decorações de Ramadã entre as ruínas


Palestinos sentam-se em uma longa mesa em meio aos escombros de edifícios destruídos enquanto se reúnem para o iftar, a refeição que quebra o jejum, no primeiro dia do mês sagrado muçulmano do Ramadã, em Khan Younis, Faixa de Gaza, quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026 / Imagem: AP/Abdel Kareem Hana
Ainda assim, alguns na Faixa de Gaza se esforçaram para trazer um pouco das festividades do mês, por exemplo, pendurando enfeites de Ramadã entre as ruínas.
No campo de deslocados, os filhos de Waleed al Zamli brincavam com latas de refrigerante vazias transformadas em lanternas de Ramadã.
O acordo de cessar-fogo mediado pelos EUA em 10 de outubro de 2025 tentou interromper mais de 2 anos de bombardeios de Israel. No entanto, as forças israelenses realizam ataques aéreos quase diários. Apenas neste período de "trégua", mais de 600 palestinos foram mortos, segundo autoridades de saúde de Gaza.
Al Zamli disse que a guerra privou ele e sua família de muitas coisas. Um genro, contou ele, foi morto pouco depois de se casar com sua filha, agora viúva.
Neste Ramadã, ele rezará “para que o derramamento de sangue termine… e para que possamos sentir segurança, proteção e tranquilidade” e “para que possamos prover boa comida e roupas para nossos filhos”.
Quando começa o Ramadã?
O início do Ramadã varia a cada ano no calendário gregoriano (nosso calendário civil) porque o calendário islâmico é estritamente lunar. Como o ano lunar é cerca de 10 a 12 dias mais curto que o ano solar, o Ramadã avança cerca de 11 dias a cada ano.
Eis abaixo como se sabe o momento exato de início do Ramadã:
- Avistamento da Lua Crescente (Hilal): O Ramadã, que é o nono mês do calendário islâmico, começa com a observação da primeira lua crescente (hilal) após o fim do mês anterior, Sha'ban. Tradicionalmente, comitês de observação da lua ou autoridades religiosas procuram o fino crescente no céu após o pôr do sol do 29º dia de Sha'ban.
- Confirmação Visual: Se o crescente for avistado, o Ramadã começa no dia seguinte. Se a lua não for visível (devido a nuvens ou cálculos astronômicos que indicam que ela ainda não nasceu), o mês de Sha'ban completa 30 dias e o Ramadã começa no dia subsequente.
- Variação Geográfica: O início pode variar de um país para outro, pois a visibilidade da lua depende da localização geográfica. Muitos países seguem os avistamentos da Arábia Saudita, enquanto outros fazem suas próprias observações locais.
*Fam reportou do Cairo. O jornalista da Associated Press, Mohammad Jahjouh, em Muwasi, Faixa de Gaza, contribuiu para esta reportagem.
Autor
Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.