Como o genro de Trump quer que Gaza seja reconstruída
Plano enxerga Gaza com a mentalidade de um incorporador imobiliário, e não de um mediador da paz que se importa com os palestinos, diz a pesquisadora associada do Centro de Política de Segurança de Genebra
*Por Julia Frankel
O fato principal
Cidades modernas com arranha-céus, um litoral que atrai turistas e um porto de última geração que avance pelo Mediterrâneo. É assim que Jared Kushner –genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e conselheiro para o Oriente Médio– diz que Gaza pode ficar, de acordo com uma apresentação feita por ele na quinta-feira (22.jan.2026) no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.
Em seu discurso de 10 minutos, Kushner afirmou que seria possível –se houver segurança– reconstruir rapidamente as cidades de Gaza, hoje em ruínas após mais de 2 anos de bombardeios de Israel.
“No Oriente Médio, eles constroem cidades assim em 3 anos. “Então coisas assim são muito viáveis, se fizermos acontecer”, disse Kushner, que teria ajudado a mediar o acordo de cessar-fogo, que está em vigor desde outubro de 2025, mas não impediu que mais de 470 palestinos fossem mortos em disparos israelenses efetuados desde então.

Contraste com o que os palestinos querem
O cronograma do genro de Trump contrasta com o que as Nações Unidas e os palestinos acreditam que será um processo muito longo de reabilitação de Gaza.
Em todo o território –um dos mais populosos do mundo, com cerca de 2 milhões de pessoas num pequeno pedaço de terra–, apartamentos viraram montes de escombros; explosivos não detonados se escondem sob os destroços; doenças se espalham por causa da água contaminada por esgoto; e as ruas das cidades parecem desfiladeiros de terra.


O Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos afirma que Gaza tem mais de 60 milhões de toneladas de entulho, o suficiente para encher quase 3.000 navios porta-contêineres. Segundo o órgão, isso levará mais de 7 anos para ser removido. Depois, ainda será necessário tempo adicional para desminagem.
Kushner falou enquanto Trump e uma série de líderes mundiais se reuniam em Davos para ratificar a carta do "Conselho da Paz", órgão que supervisionará o cessar-fogo e o processo de reconstrução, sob liderança de Trump, que pretende ser o líder vitalício e único com poder de veto do colegiado –esvaziado até de países que costumam se aliar aos Estados Unidos.

A seguir, alguns tópicos do plano de Kushner, o genro de Trump.
Reconstrução depende de segurança
Kushner disse que seu plano de reconstrução só funcionará se Gaza tiver “segurança” –o que representa um grande “se”.
Continua incerto se o Hamas vai se desarmar, e as tropas israelenses disparam contra palestinos em Gaza quase diariamente.
Dirigentes do grupo armado afirmam ter o direito de resistir à ocupação israelense, mas já disseram que considerariam “congelar” suas armas como parte de um processo para alcançar a criação de um Estado palestino.
Desde que o último cessar-fogo entrou em vigor, em 10 de outubro, tropas israelenses mataram ao menos 470 palestinos em Gaza, incluindo crianças pequenas e mulheres, segundo o Ministério da Saúde do território. Israel diz que abriu fogo em resposta a violações do cessar-fogo, mas centenas de mortos são civis. Exemplos:

Diante desses desafios, o "Conselho da Paz" vem trabalhando com Israel (que é justamente o país que bombardeia Gaza) em medidas de “desescalada”, disse Kushner, e passa agora a se concentrar na desmilitarização do Hamas. Este processo seria gerido por um comitê tecnocrático palestino, apoiado e supervisionado pelos EUA.

Está longe de ser confirmado que o Hamas cederá ao comitê, conhecido pela sigla em inglês NCAG. O grupo é pensado para, no futuro, entregar o controle de Gaza a uma Autoridade Palestina reformada.
O Hamas diz que dissolverá o seu governo para abrir caminho ao comitê, mas tem sido vago quanto ao destino de suas forças e de suas armas. Enquanto o Hamas dá declarações sobre poder dissolver seu governo, ataques de drones de Israel matam civis em Gaza.

Outro fator que pode complicar o desarmamento é a existência de grupos armados rivais em Gaza, que a apresentação de Kushner diz que seriam desmantelados ou “integrados ao NCAG”. Durante a guerra, Israel apoiou grupos armados e gangues palestinas em Gaza, o que diz ser uma forma de contrabalançar o Hamas.
Sem segurança, disse Kushner, não haverá como atrair investidores para Gaza nem estimular a criação de empregos.
A mais recente estimativa conjunta da ONU (Organização das Nações Unidas), da União Europeia e do Banco Mundial é de que reconstruir Gaza custará US$ 70 bilhões.
Um dos slides apresentados por Kushner dizia que a reconstrução não começaria em áreas que não estivessem totalmente desarmadas.
Plano de Kushner ignora o que acontece com os palestinos
Ao apresentar seu plano para a reconstrução de Gaza, Kushner não explicou como será feita a desminagem nem onde os moradores viverão enquanto suas áreas estiverem sendo reconstruídas.
No momento, a maioria das famílias palestinas se abriga em uma faixa de terra que inclui partes da Cidade de Gaza e boa parte da costa. Vivem em tendas improvisadas sem qualquer estrutura. Passam frio, e bebês morrem de hipotermia. Só neste inverno, 9 crianças morreram desta causa.

A ideia de construir novas cidades modernas deixou muitos palestinos preocupados com a possibilidade de não conseguirem voltar para suas casas ou reconstruí-las.
“Eu estava planejando montar uma tenda onde ficava minha antiga casa e, aos poucos, reconstruir minha vida”, disse Ahmed Awadallah, que mora com a família em um dos muitos campos de deslocados na cidade de Khan Younis.
Se os arranha-céus que Kushner idealiza algum dia forem erguidos, Awadallah acredita que sua família, na melhor das hipóteses, acabaria em um pequeno apartamento em um deles.
Bassil Najjar, que está no mesmo acampamento de tendas que Awadallah, diz acreditar que os arranha-céus prometidos não são destinados às pessoas de Gaza. A casa dele, que foi incendiada, fica em uma área atualmente sob controle israelense.
“Perdi a esperança de voltar para minha casa”, afirmou na sexta-feira (23.jan).
Na visão de Kushner para o futuro de Gaza, haveria novas estradas, um novo aeroporto –o antigo foi destruído por Israel há mais de 20 anos–, além de um novo porto e de uma faixa ao longo da costa designada para “turismo”, que hoje é justamente onde vive a maior parte dos palestinos.
O plano prevê 8 “áreas residenciais” intercaladas com parques, terras agrícolas e instalações esportivas.
Kushner também destacou áreas para “manufatura avançada”, “centros de dados” e um “complexo industrial”, embora não esteja claro que tipos de indústria funcionariam ali.
O genro de Trump disse que a construção começaria pela moradia da força de trabalho em Rafah, cidade ao sul devastada pela guerra e hoje sob controle das tropas israelenses. Segundo Kushner, já estariam em andamento trabalhos de demolição e retirada de entulho na área.
Kushner não mencionou se haverá desminagem. A ONU diz que há projéteis e mísseis não detonados por toda Gaza, o que representa uma ameaça para pessoas que vasculham escombros em busca de parentes, pertences ou lenha para se aquecer.
Organizações de direitos humanos afirmam que a retirada de entulho e as atividades de desminagem ainda não começaram de fato na zona onde vive a maioria dos palestinos, porque Israel tem impedido a entrada de maquinário pesado.
Depois de Rafah, viria a reconstrução da Cidade de Gaza, disse Kushner –ou “Nova Gaza”, como aparece em um de seus slides. A "nova cidade" poderia ser um lugar onde as pessoas “terão ótimos empregos”, afirmou.
Israel algum dia aceitaria isso?
Advogada internacional, especialista em resolução de conflitos e pesquisadora associada do Centro de Política de Segurança de Genebra, Nomi Bar-Yaacov classificou o conceito inicial do "Conselho da Paz" para o redesenvolvimento de Gaza como “totalmente irrealista” e um sinal de que Trump o enxerga com a mentalidade de um incorporador imobiliário, não de um mediador da paz.
Além disso, um projeto com tantos prédios altos jamais seria aceitável para Israel, segundo ela, porque cada um deles ofereceria uma visão clara de suas bases militares perto da fronteira.
A apresentação de Kushner dizia que o NCAG acabaria repassando a supervisão de Gaza para a Autoridade Palestina, após a realização de reformas, mas o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, se opõe firmemente a qualquer proposta de cenário pós-guerra em Gaza que envolva a Autoridade Palestina.
Mesmo na Cisjordânia, onde a Autoridade Palestina governa, ela é amplamente impopular por acusações de corrupção e pela percepção geral da população de que atua em colaboração com Israel.
*Toqa Ezzidin, no Cairo, e Danica Kirka contribuíram de Londres.
Autor
Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
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