Caos no Golfo Pérsico é parte da estratégia do Irã
País aposta em prolongar conflito e exercer pressão sobre aliados dos EUA na região para ter saída negociada
*Por Jon Gambrell e Jamey Keaten
Agentes do Comando da Defesa Civil de Israel inspecionam um prédio de apartamentos danificado após um ataque de míssil iraniano em Petah Tikva, Israel, na terça-feira, 3 de março de 2026 / Imagem: AP/Ohad Zwigenberg
O fato principal
Durante anos, o governo teocrático do Irã alertou que inundaria o Oriente Médio com mísseis e drones caso se sentisse ameaçado.
Agora, a República Islâmica está fazendo exatamente isso.
Desde que os EUA e Israel iniciaram a guerra no sábado (28.fev.2026) e assassinaram o Líder Supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, o Irã lançou milhares de drones e mísseis balísticos contra Israel, bases militares e embaixadas norte-americanas na região e instalações de energia do outro lado do Golfo Pérsico.
Os disparos iranianos chegaram a ultrapassar suas fronteiras com a Turquia e o Azerbaijão (embora o Irã, oficialmente, negue a autoria dos ataques que atingiram estes 2 países).
A estratégia básica do Irã seria:
- Incitar o medo para os perigos de uma guerra generalizada, na esperança de que os aliados dos EUA exerçam pressão suficiente para interromper sua campanha; ou
- Prolongar o conflito, incluindo baixas norte-americanas e israelenses, o que também poderia ser vantajoso para o país.
Após mais de 2 anos de guerra na Faixa de Gaza, a população israelense parece não ter muita disposição para outra longa rodada de combates. As pesquisas sugerem que a população norte-americana está receosa quanto a um conflito prolongado.
Tentativa de desgastar as defesas regionais e incitar o medo
A 1ª prioridade do Irã é sair da guerra com suas instituições estatais intactas, disse a vice-diretora do programa para o Oriente Médio e Norte da África do Conselho Europeu de Relações Exteriores, Ellie Geranmayeh.
“O Irã está aumentando os custos desta campanha militar dos EUA e regionalizando-a desde o início, como prometeram fazer caso os Estados Unidos reiniciem a guerra com o Irã”, afirmou.
Os EUA se juntaram a Israel em junho de 2025 numa guerra de 12 dias, visando instalações de enriquecimento nuclear. O Irã afirma que seu programa é pacífico, embora enriqueça urânio a níveis próximos aos de armas nucleares.
Os líderes iranianos acreditam que, ao infligir baixas e interromper a produção de energia para aumentar os preços do petróleo e do gás, os aliados dos Estados Unidos ou uma população interna insatisfeita pressionarão o presidente norte-americano Donald Trump a recuar.
“Os iranianos estão apostando em basicamente desgastá-lo e exauri-lo, juntamente com seus aliados, a ponto de terem uma saída diplomática”, disse Geranmayeh.
Trump é imprevisível, afirmou Geranmayeh, mas, por ora, parece estar pressionando por uma “rendição incondicional às suas exigências, em vez de uma solução negociada”.
Os EUA e Israel realizaram centenas de ataques aéreos e infligiram pesados danos a alvos governamentais, militares e nucleares iranianos.
Apesar de estar em grande desvantagem em termos de armamento, o Irã continuou a disparar mísseis balísticos contra Israel, matando 11 pessoas e perturbando a vida de milhões de israelenses.
Mais pessoas foram mortas nos estados árabes do Golfo, e a campanha EUA-Israel já matou 1.045 pessoas no Irã.
Amigos e antigos inimigos atingidos igualmente pelo Irã
O ataque norte-americano e israelense ocorreu após o fracasso das negociações entre os EUA e o Irã sobre o programa nuclear iraniano e as sanções ocidentais.
Trump afirmou na segunda-feira (2.mar) que seus 4 objetivos eram:
- Destruir as capacidades de mísseis do Irã;
- Aniquilar sua Marinha;
- Impedi-lo de obter uma arma nuclear; e
- Garantir que não possa continuar apoiando grupos armados aliados na região.
A resposta iraniana não poupou ninguém na região –nem mesmo Omã, que mediou a última rodada de negociações nucleares e manteve por décadas uma relação próxima com o Irã.
Na década de 1970, o xá do Irã (como é denominado o período monárquico iraniano) ajudou o falecido sultão Qaboos bin Said a sufocar uma rebelião.
Mas, agora, o Omã vem sendo arrastado para o conflito. Um porto omanita e navios em sua costa foram alvejados por mísseis iranianos. O porto de Duqm, em Omã, auxiliou o porta-aviões USS Abraham Lincoln com a logística pré-desdobramento.
A Arábia Saudita, que mantém uma distensão com Teerã desde 2023, também esteve na mira esta semana. Sua refinaria de petróleo em Ras Tanura foi atacada repetidamente e a embaixada dos EUA em Riad foi atingida por drones.
O episódio foi considerado constrangedor para o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, que tem se esforçado para cultivar uma relação próxima com Trump. Inclusive, foi pessoalmente recebido pelo presidente norte-americano na Casa Branca em 2025.
O Catar e os Emirados Árabes Unidos, que têm laços estreitos com Trump, também foram alvos.
Matemática dos mísseis se torna mais importante
Há uma equação matemática sombria em jogo à medida que a guerra continua. O Irã tem um número finito de mísseis e drones, assim como os estados árabes do Golfo, os EUA e Israel têm um número limitado de mísseis interceptores capazes de abater os disparos inimigos.
O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, disse na quarta-feira (4.mar) que milhares de mísseis e drones iranianos foram “interceptados e vaporizados” durante a guerra. Os militares israelenses afirmam ter destruído dezenas de lançadores de mísseis.
Do lado norte-americano e israelense, o foco continua sendo o ataque a mísseis e seus lançadores. Ambos os países tiveram que abater mísseis iranianos durante a guerra em junho e diversas vezes durante o conflito entre Israel e Hamas.
“Em termos simples, estamos focados em abater tudo o que possa nos atingir”, afirmou o almirante da Marinha dos EUA, Brad Cooper, chefe do Comando Central das Forças Armadas dos norte-americanas.
Um alto funcionário ocidental, falando sob condição de anonimato para discutir assuntos de inteligência, afirmou que o Irã possui mísseis balísticos suficientes para vários dias, caso continue disparando no ritmo atual, mas pode reservar alguns para uma campanha mais longa.
O exército israelense afirma que houve um número muito menor de mísseis iranianos lançados nos últimos dias como resultado dos ataques aéreos, embora sirenes de alerta tenham soado frequentemente em Israel entre quarta (4) e quinta-feira (5).
Estratégia do Irã pode se voltar contra ele
A estratégia do Irã de tentar ameaçar a segurança energética, criar uma cisão entre os países do Golfo e os países ocidentais e aumentar os custos está “se voltando contra ele”, disse Hasan Alhasan, especialista em Oriente Médio do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, com sede em Londres.
“Isso está levando os países do Golfo a se alinharem mais estreitamente com os Estados Unidos”, disse ele.
“Os países do Golfo não podem simplesmente ficar de braços cruzados e continuar absorvendo ataques indefinidos à sua infraestrutura crítica e a civis em cidades do Golfo”, disse Alhasan.
"Eles provavelmente estão tentando adquirir mais armas para interceptar disparos inimigos e encontrar maneiras de negociar o fim da guerra", afirmou.
O ministro das Relações Exteriores do Irã sugeriu que as unidades militares do país estão agora isoladas e agindo independentemente de qualquer controle do governo central, uma possível justificativa para os disparos cada vez mais erráticos do Irã.
“Eles estão agindo com base em instruções –você sabe, instruções gerais– dadas a eles com antecedência”, disse Abbas Araghchi à Al Jazeera no domingo (1).
Mas, após um telefonema na quarta-feira (4) com Araghchi, o primeiro-ministro do Catar, Sheikh Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, “rejeitou categoricamente” sua afirmação de que os mísseis iranianos estavam direcionados apenas a interesses norte-americanos e não tinham a intenção de atingir o Catar.
*Keaten reportou de Genebra. Os jornalistas da Associated Press Danica Kirka e Jill Lawless, em Londres, contribuíram para esta reportagem.
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Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
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