Campanha começa para a primeira eleição nacional de Bangladesh após a queda de primeira-ministra
Governo interino do país é liderado por um ganhador do Nobel da Paz e prometeu eleições livres e justas, mas há questionamentos sobre o cumprimento da promessa
*Por Julhas Alam
O fato principal
A campanha eleitoral começou na quinta-feira (22.jan.2026) para as primeiras eleições nacionais de Bangladesh desde a revolta de 2024, que derrubou a ex-primeira-ministra Sheikh Hasina. Os principais partidos políticos realizaram comícios na capital, Daca, e em outras regiões.
O pleito está marcado para o dia 12 de fevereiro de 2026 e é considerado o mais importante da História do país, pois ocorre após a saída de Hasina e sob um governo interino. Os eleitores também decidirão sobre propostas de reformas políticas.
Preocupações com a eleição

O governo interino, liderado pelo ganhador do Prêmio Nobel da Paz Muhammad Yunus, prometeu realizar uma eleição livre e justa. No entanto, surgiram questionamentos após sua administração proibiu a participação do antigo partido governista, a Liga Awami, de Hasina.
A Liga Awami e o Partido Nacionalista de Bangladesh (BNP, na sigla em inglês, de Bangladesh Nationalist Party) historicamente dominam o eleitorado do país.
Há também preocupações com a segurança pública, mas o governo afirma que garantirá uma votação pacífica.
Contexto político

Yunus assumiu o cargo 3 dias depois que Hasina deixou o país rumo à Índia, em 5 de agosto de 2024, após a morte de centenas de manifestantes e de outras pessoas durante uma repressão violenta.
Com a Liga Awami excluída da disputa, uma aliança de 10 partidos liderada pelo Jamaat-e-Islami, um partido islâmico, busca ampliar sua influência.
O Jamaat-e-Islami é criticado por grupos secularistas, que dizem que suas posições desafiam os fundamentos laicos de Bangladesh.
Um novo partido formado por líderes estudantis da revolta, o Partido Nacional dos Cidadãos (NCP, National Citizen Party, em inglês), também faz parte da aliança.

Tarique Rahman, presidente do BNP e filho da ex-primeira-ministra Khaleda Zia, é amplamente visto como o principal candidato a primeiro-ministro. Seu partido atrai forte apoio, com base no legado político de sua mãe, que morreu no mês passado, dezembro de 2025.
Rahman retornou ao Bangladesh no mês passado, após 17 anos de exílio no Reino Unido. Ele iniciou sua campanha na cidade de Sylhet, no nordeste, discursando para milhares de apoiadores em um comício na quinta-feira (22). Deve visitar vários outros distritos nos próximos dias.
Em Sylhet, Rahman criticou o Jamaat-e-Islami por usar sentimentos religiosos para conquistar votos e afirmou que, se eleito, defenderá a soberania nacional e trabalhará em prol das mulheres e dos jovens.
“Agora devemos restabelecer o direito ao voto, reconstruir a nação e torná-la economicamente autossuficiente”, disse ele.
O retorno de Rahman energizou seus apoiadores:
“Sob sua liderança, queremos ver um Bangladesh autossuficiente e organizado por meio de um processo democrático”, disse Ali Akbar Rajan, simpatizante do BNP, durante o comício em Sylhet.
“Esperamos que ele se torne um estadista de sucesso”, acrescentou.
Jamaat-e-Islami e o NCP lançaram suas campanhas em Daca.
“Existem terrorismo, extorsão, corrupção e apropriação forçada. Nossa luta é contra isso, para estabelecer um Bangladesh justo e, ao mesmo tempo, construir uma Daca segura para mulheres e crianças”, afirmou Nasiruddin Patwari, líder do NCP.
Reformas

A eleição também incluirá um referendo sobre uma Carta Nacional, com o governo interino buscando apoio popular para o que descreve como um novo rumo político baseado em reformas.
A Carta foi assinada no ano passado por 25 dos 52 partidos políticos registrados no país. A Liga Awami se opôs à iniciativa, e outros partidos se recusaram a assinar o documento.
A chamada Carta Nacional de Julho, batizada em referência à revolta iniciada em julho de 2024 que levou à queda de Hasina, é atualmente não vinculativa. Seus defensores afirmam que o referendo é necessário para torná-la legalmente obrigatória e parte da Constituição, que só pode ser alterada pelo Parlamento.
O governo interino diz que a Carta traria mais mecanismos de controle e equilíbrio para evitar futuros governos autoritários, ao dar mais autoridade à Presidência, contrapondo-se ao tradicionalmente poderoso cargo de primeiro-ministro.
O texto também propõe limites de mandato para legisladores e medidas contra conflitos de interesse, lavagem de dinheiro e corrupção.
Autor
Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.