Bebê morre de frio em Gaza enquanto líderes se reúnem para discutir o 'Conselho da Paz' de Trump
Shaza Abu Jarad foi a 9ª criança a morrer de frio neste inverno em Gaza. Palestinos lidam com condições desumanas após 2 anos de bombardeios israelenses.
*Por Wafaa Shurafa, Samy Madgy e Sam Metz / Associated Press
O fato principal
Uma bebê palestina morreu de hipotermia nesta terça-feira (20.jan.2026) na Faixa de Gaza. O episódio torna ainda mais evidentes as precárias condições humanitárias no território. Enquanto isso, líderes mundiais se reuniam em um resort na Suíça, no Fórum Econômico Mundial de Davos, onde o plano de cessar-fogo do presidente dos EUA, Donald Trump, para Gaza era um dos principais temas da agenda.
A família de Shaza Abu Jarad encontrou a bebê de 3 meses na manhã de terça-feira em sua tenda no bairro de Daraj, na Cidade de Gaza.
"Ela estava congelando e morta", disse o pai da bebê, Mohamed Abu Jarad, à Associated Press por telefone após o funeral.
"Ela morreu de frio", disse ele.
O homem, que trabalhava em Israel antes da guerra, vive com a esposa e seus outros 7 filhos em uma tenda improvisada, depois que sua casa foi destruída pelos bombardeios israelenses.
A família levou a menina ao hospital Al-Ahli, onde um médico constatou o óbito por hipotermia, disse seu tio, Khalid Abu Jarad. O Ministério da Saúde de Gaza confirmou que a bebê morreu de hipotermia.
A família está entre as centenas de milhares de pessoas abrigadas em acampamentos improvisados e prédios destruídos pela guerra em Gaza, região que enfrenta invernos frios e úmidos, com temperaturas que caem abaixo de 10ºC à noite.
'Conselho da Paz' na pauta de Davos
Enquanto os palestinos no enclave devastado pela guerra sofrem em campos de deslocados, Trump espera estabelecer seu "Conselho da Paz" no Fórum Econômico Mundial em Davos. Mas a iniciativa, inicialmente concebida para supervisionar o cessar-fogo em Gaza, enfrenta muitas dúvidas sobre sua composição e abrangência.
Na terça-feira, Israel começou a demolir a sede da agência da ONU (Organização das Nações Unidas) para refugiados palestinos em Jerusalém. Assim, prosseguiu com a repressão contra um órgão que presta ajuda humanitária essencial para a sobrevivência de centenas de milhares de pessoas.
Gaza: 9 crianças já morreram de frio neste inverno

Shaza Abu Jarad foi a 9ª criança a morrer de hipotermia neste inverno em Gaza, segundo o Ministério da Saúde da Faixa, órgão do governo controlado pelo Hamas e composto por profissionais da saúde. A ONU e especialistas independentes o consideram a fonte mais confiável sobre vítimas da guerra. Praticamente só Israel contesta os números, mas não divulga os seus próprios.
Existe um acordo de cessar-fogo vigente desde outubro, mas as mortes de palestinas (e apenas deles) continuam sem parar. Mais de 100 crianças morreram desde o início do período de trégua. O número inclui uma menina de 27 dias que morreu de hipotermia no fim de semana.
Condições precárias de vida para milhões de pessoas
O cessar-fogo deveria interromper 2 anos de bombardeios de Israel e permitir o aumento de suprimentos de ajuda humanitária que entram em Gaza, principalmente alimentos. No entanto, os moradores dizem que a escassez de cobertores e roupas quentes continua, assim como há pouca lenha para fogueiras.
Não há eletricidade central em Gaza desde os primeiros dias da guerra, que foram em 2023. O combustível para geradores é escasso.
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha afirmou que o frio intenso e as chuvas recentes em Gaza representam “uma ameaça à sobrevivência”.
'Conselho da Paz' de Trump tem ambições maiores
Chamado de "Conselho da Paz" (*nome que o Correio Sabiá, internamente, ainda não definiu se adotará de maneira permanente), o grupo criado por Trump foi, inicialmente, visto pela grande imprensa como um mecanismo focado em acabar com a guerra entre Israel e Hamas em Gaza.
Mas convites recentes enviados a dezenas de líderes mundiais, assim como as entrelinhas das declarações políticas de Trump, mostram que o órgão está sendo criado com ambições que vão além de Gaza, com o intuito de rivalizar com órgãos globais de governança, como o Conselho de Segurança da ONU.
Trump afirma que o órgão “adotará uma nova abordagem ousada para a resolução de conflitos globais”, indicando que o trabalho do órgão pode não se limitar à Faixa de Gaza.
Durante uma coletiva de imprensa na Casa Branca na terça-feira, Trump foi questionado por um repórter se o Conselho de Paz deveria substituir as Nações Unidas.
“Pode ser”, disse Trump. “A ONU simplesmente não tem sido muito útil. Sou um grande fã do potencial, mas ela nunca o concretizou.”
Ele acrescentou:
“Acredito que devemos deixar a ONU continuar, porque o potencial é enorme.”
A criação do Conselho fazia parte do plano de cessar-fogo de 20 pontos de Trump. Muitos países, incluindo a Rússia, disseram ter recebido o convite de Trump e que estavam estudando a proposta.
A França afirmou que não planeja aderir ao conselho “nesta fase”.
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*Magdy reportou do Cairo e Metz reportou de Jerusalém.
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Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
