Ataque no sul do Sudão deixa 22 mortos, em região devastada pela guerra e ameaçada pela fome
A ONU estima que mais de 40 mil pessoas foram mortas na guerra do Sudão. Mais de 14 milhões deixaram suas casas.
*Por Noha Elhennawy
O fato principal
A fome ameaça mais áreas na região de Darfur, no oeste do Sudão, devastada pela guerra, afirmou nesta quinta-feira um grupo global de monitoramento da fome, após um ataque de forças paramilitares a um hospital militar no sul do país que matou 22 pessoas, incluindo o diretor do hospital e três membros de sua equipe médica.
Darfur é uma região historicamente marcada por conflitos e violência desde os anos 2000, quando milícias apoiadas pelo governo foram acusadas de cometer massacres contra populações locais.
Desde abril de 2023, o Sudão está mergulhado em uma guerra após uma luta pelo poder entre os militares e as poderosas RSF (Forças de Apoio Rápido), um grupo paramilitar que surgiu a partir das milícias conhecidas como “Janjaweed”, acusadas de atrocidades em Darfur no passado.
O conflito desencadeou o que as Nações Unidas chamam de a pior crise humanitária do mundo, uma situação extrema em que milhões de pessoas não têm acesso adequado a comida, água, saúde e abrigo.
A Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês) divulgou um novo relatório afirmando que a desnutrição aguda atingiu níveis de fome em mais duas cidades de Darfur.
O IPC é um sistema internacional usado por governos e organizações para medir a gravidade da fome em diferentes regiões do mundo.
No ano passado, o grupo afirmou que a população de El Fasher, a principal cidade de Darfur, tomada pelas forças paramilitares após um cerco de 18 meses, estava sofrendo com a fome. Houve impedimento para entrada de alimentos, água e suprimentos, o que frequentemente leva à escassez extrema.
O ataque de quinta-feira na cidade de Kouik, na província de Kordofan do Sul, também deixou oito pessoas feridas, informou a Rede de Médicos do Sudão, um grupo de profissionais de saúde que monitora a guerra. Não ficou imediatamente claro quantas das vítimas eram civis.
O ataque “não foi um incidente isolado, mas sim parte de uma série de ataques que têm assolado Kordofan do Sul”, afirmou a rede, acrescentando que os ataques deixaram “vários hospitais inoperáveis”, reduzindo drasticamente o atendimento médico em uma região já afetada pela guerra.
A ONU estima que mais de 40.000 pessoas foram mortas na guerra no Sudão, mas agências humanitárias acreditam que o número real pode ser muito maior. Mais de 14 milhões de pessoas foram forçadas a fugir de suas casas.
Relatório alarmante
O relatório do IPC afirmou que níveis de desnutrição comparáveis à fome foram registrados nas cidades de Umm Baru e Kernoi, na província de Darfur do Norte. Em novembro, o grupo afirmou que, além de el-Fasher, a cidade de Kadugli, em Kordofan do Sul, também estava sofrendo com a fome. Na época, também informou que outras 20 áreas em todo o Sudão estavam em risco de fome.
Em Umm Baru, quase 53% das crianças entre 6 meses e quase 5 anos sofriam de desnutrição aguda, segundo o IPC –quase o dobro do limite para caracterizar fome, que é de 30%. Em Kernoi, 32% das crianças sofrem de desnutrição, afirmou o grupo.
“Essas taxas alarmantes sugerem um risco aumentado de mortalidade excessiva e levantam a preocupação de que áreas próximas possam estar enfrentando condições catastróficas semelhantes”, diz o relatório.
Desde o início da guerra civil no Sudão, o IPC confirmou a ocorrência de fome em um total de 7 áreas.
O grupo afirmou não ter conseguido confirmar uma situação de fome generalizada em Umm Baru e Kernoi, pois o acesso limitado e a falta de dados dificultam a confirmação de outros 2 critérios (acesso a alimentos e mortalidade) necessários para que uma situação de fome seja confirmada.
A queda de el-Fasher para as RSF em outubro de 2025 desencadeou um êxodo de pessoas para cidades próximas, sobrecarregando os recursos das comunidades vizinhas e aumentando os índices de insegurança alimentar, segundo o relatório.
O IPC (Centro Internacional de Planejamento) confirmou a ocorrência de fome apenas algumas vezes, a mais recente em 2025, no norte da Faixa de Gaza, durante a guerra entre Israel e o Hamas. Também confirmou casos de fome na Somália em 2011 e no Sudão do Sul em 2017 e 2020.
Em 2024, a fome atingiu outras 5 áreas no norte de Darfur e também a região das Montanhas Nuba, no Sudão.
O relatório do IPC também alertou que mais pessoas podem enfrentar fome extrema em Kordofan, onde o conflito interrompeu a produção de alimentos e as linhas de abastecimento em cidades sitiadas e áreas isoladas.
“Um cessar-fogo imediato e sustentado é crucial para evitar mais miséria, fome e mortes nas áreas afetadas do Sudão”, apelou o grupo sediado em Roma.
De acordo com especialistas, a fome é definida em áreas onde as mortes por causas relacionadas à desnutrição atingem:
- ao menos duas pessoas, ou 4 crianças menores de 5 anos, por 10.000 habitantes;
- ao menos uma em cada 5 pessoas ou famílias sofre de grave falta de alimentos e enfrenta a fome; e
- ao menos 30% das crianças menores de 5 anos sofrem de desnutrição aguda com base na relação peso/altura –ou 15% com base na circunferência do braço.
Combates continuam
Desde que as RSF tomaram El-Fasher, que era um dos últimos redutos do exército em Darfur, os combates se concentraram recentemente em várias áreas de Kordofan. Recentemente, o exército sudanês começou a avançar em Kordofan após romper o cerco em Kadugli e na cidade vizinha de Dilling.
Na terça-feira, o exército sudanês anunciou que havia aberto uma estrada crucial entre Dilling e Kadugli, que estava sob cerco das RSF desde o início da guerra. As RSF lançaram um ataque com drone na terça-feira que atingiu um centro médico em Kadugli, matando 15 pessoas, incluindo 7 crianças, de acordo com a Rede de Médicos do Sudão.
Nesta semana, os Estados Unidos e a ONU também anunciaram que estão buscando apoio internacional para a ajuda humanitária ao Sudão, lançando um novo Fundo Humanitário para o Sudão com contribuições de US$ 700 milhões dos Emirados Árabes Unidos e dos EUA.
O governo Trump afirmou na terça-feira que contribuirá com US$ 200 milhões para a iniciativa, provenientes de um montante de US$ 2 bilhões reservado no final do ano passado para financiar projetos humanitários em todo o mundo.
Os Emirados Árabes Unidos disseram que contribuirão com US$ 500 milhões. A Arábia Saudita e vários outros participantes prometeram fazer doações, mas não especificaram os valores.
*A jornalista da Associated Press, Fay Abuelgasim, no Cairo, contribuiu para esta reportagem.
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Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
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