Ataque no sul do Sudão deixa 22 mortos, em região devastada pela guerra e ameaçada pela fome

A ONU estima que mais de 40 mil pessoas foram mortas na guerra do Sudão. Mais de 14 milhões deixaram suas casas.

Ataque no sul do Sudão deixa 22 mortos, em região devastada pela guerra e ameaçada pela fome
Pessoas enchem recipientes de água em um ponto de distribuição gratuita devido à falta de água em Cartum, Sudão, em 30 de janeiro de 2026 / Imagem: AP/Marwan Ali, Arquivo
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*Por Noha Elhennawy

O fato principal

A fome ameaça mais áreas na região de Darfur, no oeste do Sudão, devastada pela guerra, afirmou nesta quinta-feira um grupo global de monitoramento da fome, após um ataque de forças paramilitares a um hospital militar no sul do país que matou 22 pessoas, incluindo o diretor do hospital e três membros de sua equipe médica.

Darfur é uma região historicamente marcada por conflitos e violência desde os anos 2000, quando milícias apoiadas pelo governo foram acusadas de cometer massacres contra populações locais.

Desde abril de 2023, o Sudão está mergulhado em uma guerra após uma luta pelo poder entre os militares e as poderosas RSF (Forças de Apoio Rápido), um grupo paramilitar que surgiu a partir das milícias conhecidas como “Janjaweed”, acusadas de atrocidades em Darfur no passado.

O conflito desencadeou o que as Nações Unidas chamam de a pior crise humanitária do mundo, uma situação extrema em que milhões de pessoas não têm acesso adequado a comida, água, saúde e abrigo.

A Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês) divulgou um novo relatório afirmando que a desnutrição aguda atingiu níveis de fome em mais duas cidades de Darfur.

O IPC é um sistema internacional usado por governos e organizações para medir a gravidade da fome em diferentes regiões do mundo.

No ano passado, o grupo afirmou que a população de El Fasher, a principal cidade de Darfur, tomada pelas forças paramilitares após um cerco de 18 meses, estava sofrendo com a fome. Houve impedimento para entrada de alimentos, água e suprimentos, o que frequentemente leva à escassez extrema.

O ataque de quinta-feira na cidade de Kouik, na província de Kordofan do Sul, também deixou oito pessoas feridas, informou a Rede de Médicos do Sudão, um grupo de profissionais de saúde que monitora a guerra. Não ficou imediatamente claro quantas das vítimas eram civis.

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Kordofan do Sul é outra região estratégica do Sudão, localizada ao sul de Darfur, que também tem sido palco de combates intensos.

O ataque “não foi um incidente isolado, mas sim parte de uma série de ataques que têm assolado Kordofan do Sul”, afirmou a rede, acrescentando que os ataques deixaram “vários hospitais inoperáveis”, reduzindo drasticamente o atendimento médico em uma região já afetada pela guerra.

A ONU estima que mais de 40.000 pessoas foram mortas na guerra no Sudão, mas agências humanitárias acreditam que o número real pode ser muito maior. Mais de 14 milhões de pessoas foram forçadas a fugir de suas casas.

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"Deslocados internos" são pessoas que permanecem dentro do país, mas deixam suas casas. "Refugiados" é o termo usado quando essas pessoas fogem de suas casas e atravessam fronteiras para países vizinhos.

Relatório alarmante

O relatório do IPC afirmou que níveis de desnutrição comparáveis ​​à fome foram registrados nas cidades de Umm Baru e Kernoi, na província de Darfur do Norte. Em novembro, o grupo afirmou que, além de el-Fasher, a cidade de Kadugli, em Kordofan do Sul, também estava sofrendo com a fome. Na época, também informou que outras 20 áreas em todo o Sudão estavam em risco de fome.

Em Umm Baru, quase 53% das crianças entre 6 meses e quase 5 anos sofriam de desnutrição aguda, segundo o IPC –quase o dobro do limite para caracterizar fome, que é de 30%. Em Kernoi, 32% das crianças sofrem de desnutrição, afirmou o grupo.

“Essas taxas alarmantes sugerem um risco aumentado de mortalidade excessiva e levantam a preocupação de que áreas próximas possam estar enfrentando condições catastróficas semelhantes”, diz o relatório.

Desde o início da guerra civil no Sudão, o IPC confirmou a ocorrência de fome em um total de 7 áreas.

O grupo afirmou não ter conseguido confirmar uma situação de fome generalizada em Umm Baru e Kernoi, pois o acesso limitado e a falta de dados dificultam a confirmação de outros 2 critérios (acesso a alimentos e mortalidade) necessários para que uma situação de fome seja confirmada.

A queda de el-Fasher para as RSF em outubro de 2025 desencadeou um êxodo de pessoas para cidades próximas, sobrecarregando os recursos das comunidades vizinhas e aumentando os índices de insegurança alimentar, segundo o relatório.

O IPC (Centro Internacional de Planejamento) confirmou a ocorrência de fome apenas algumas vezes, a mais recente em 2025, no norte da Faixa de Gaza, durante a guerra entre Israel e o Hamas. Também confirmou casos de fome na Somália em 2011 e no Sudão do Sul em 2017 e 2020.

Em 2024, a fome atingiu outras 5 áreas no norte de Darfur e também a região das Montanhas Nuba, no Sudão.

O relatório do IPC também alertou que mais pessoas podem enfrentar fome extrema em Kordofan, onde o conflito interrompeu a produção de alimentos e as linhas de abastecimento em cidades sitiadas e áreas isoladas.

“Um cessar-fogo imediato e sustentado é crucial para evitar mais miséria, fome e mortes nas áreas afetadas do Sudão”, apelou o grupo sediado em Roma.

De acordo com especialistas, a fome é definida em áreas onde as mortes por causas relacionadas à desnutrição atingem:

  • ao menos duas pessoas, ou 4 crianças menores de 5 anos, por 10.000 habitantes;
  • ao menos uma em cada 5 pessoas ou famílias sofre de grave falta de alimentos e enfrenta a fome; e
  • ao menos 30% das crianças menores de 5 anos sofrem de desnutrição aguda com base na relação peso/altura –ou 15% com base na circunferência do braço.

Combates continuam

Desde que as RSF tomaram El-Fasher, que era um dos últimos redutos do exército em Darfur, os combates se concentraram recentemente em várias áreas de Kordofan. Recentemente, o exército sudanês começou a avançar em Kordofan após romper o cerco em Kadugli e na cidade vizinha de Dilling.

Na terça-feira, o exército sudanês anunciou que havia aberto uma estrada crucial entre Dilling e Kadugli, que estava sob cerco das RSF desde o início da guerra. As RSF lançaram um ataque com drone na terça-feira que atingiu um centro médico em Kadugli, matando 15 pessoas, incluindo 7 crianças, de acordo com a Rede de Médicos do Sudão.

Nesta semana, os Estados Unidos e a ONU também anunciaram que estão buscando apoio internacional para a ajuda humanitária ao Sudão, lançando um novo Fundo Humanitário para o Sudão com contribuições de US$ 700 milhões dos Emirados Árabes Unidos e dos EUA.

O governo Trump afirmou na terça-feira que contribuirá com US$ 200 milhões para a iniciativa, provenientes de um montante de US$ 2 bilhões reservado no final do ano passado para financiar projetos humanitários em todo o mundo.

Os Emirados Árabes Unidos disseram que contribuirão com US$ 500 milhões. A Arábia Saudita e vários outros participantes prometeram fazer doações, mas não especificaram os valores.


*A jornalista da Associated Press, Fay Abuelgasim, no Cairo, contribuiu para esta reportagem.

Autor

Associated Press
Associated Press

Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

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