Ação educativa desperta consciência ambiental em jovens que moram à beira-mar
Estudantes de Niterói trocam a sala de aula por júri simulado e excursões para redescobrir a Baía de Guanabara
*Por Juliana Di Beo
A desconexão entre o ser humano e o mundo natural tem se intensificado, alimentada por um cotidiano mediado por telas e dispositivos digitais. Esse fenômeno resulta na invisibilização dos ecossistemas: a natureza passa a ser um lugar distante e desconectado da realidade. Embora mais evidente em metrópoles, esse distanciamento ocorre até em regiões costeiras, onde a imponência do oceano não garante, necessariamente, a compreensão de sua complexidade para o suporte à vida. Aproximar os jovens dessa realidade é o primeiro passo para transformar uma visão puramente utilitária em uma cultura de valorização e conservação do oceano e da natureza.
Um estudo recente, coordenado por Michelle Rezende, pesquisadora da UFF (Universidade Federal Fluminense), tratou de sensibilizar jovens sobre nossa relação complexa com a natureza. Nele, pesquisadores conduziram atividades educacionais para estudantes do ensino fundamental de uma escola de baixa renda da região niteroiense.
O intuito da pesquisa era responder se uma intervenção de aprendizagem participativa baseada em problemas locais pode favorecer a compreensão, por parte dos estudantes, da natureza histórica da relação sociedade-natureza.
Através de uma sequência de atividades, a equipe de pesquisadores provocou os estudantes a refletirem sobre a Baía de Guanabara, ecossistema que banha 17 municípios do Rio de Janeiro, sua importância e relação com a história de ocupação e exploração humana.
A pesquisa revelou um dado alarmante: embora morem perto da Baía, 45% dos alunos nunca a visitaram. No entanto, após atividades que incluíram campo e excursões, essa percepção mudou drasticamente. O que era visto como irrelevante passou a ser considerado essencial. O estudo reforça a importância do aprendizado fora da sala de aula para despertar a curiosidade e transformar conceitos abstratos em experiência real, conectando os jovens ao ambiente onde vivem.
Intervenção sensibiliza estudantes a se conectarem com a Baía de Guanabara
Ao todo, 31 alunos, com idades entre 14 e 17 anos, participaram das atividades. A maioria (68%) era do sexo masculino e tinha passado por reprovações escolares. A estrutura da intervenção consistiu em 5 atividades para construir gradualmente uma perspectiva da relação entre sociedade e natureza, tomando a Baía de Guanabara como estudo de caso.
A jornada de aprendizado foi dividida em 5 etapas práticas: primeiro, os estudantes tiveram palestras que abordaram o contexto socioambiental da Baía. Depois, montaram uma linha do tempo por meio de um jogo educativo, em outro momento, realizaram um júri simulado para debater o dilema entre exploração econômica e preservação. O processo incluiu ainda uma “chuva de ideias” sobre o que a Baía representa para eles e, por fim, a vivência real: uma excursão ao Parque da Cidade, à Colônia de Pescadores de Jurujuba e à sede do Projeto Aruanã, conectando a teoria e história ao dia a dia de quem vive do mar e contribui para sua conservação.

Os autores do estudo, liderados por Michelle, destacaram que durante as atividades os alunos expressaram surpresa e indignação ao começarem a compreender a ligação entre os eventos históricos e o estado atual da Baía. Nesse processo, eles reconheceram a natureza histórica do processo de urbanização e aprenderam que a Baía já abrigou uma alta densidade de manguezais, bem como populações abundantes de golfinhos e baleias.
Conexões entre o projeto Onda Cultural e o Programa Escola Azul Brasil
Esta pesquisa teve como alicerce as 10 dimensões da cultura oceânica e estava ancorada nos propósitos do projeto educativo Onda Cultural, uma colaboração entre pesquisadores da UFF e escolas públicas.
Segundo Edson Pereira e Luca Nicola, autores do estudo e integrantes do Onda, o objetivo do projeto é contribuir com educação e aprimorar o currículo em uma perspectiva que valoriza a relação das pessoas com a cultura e o meio ambiente e fortalece os sentimentos de identidade, pertencimento e preservação como exercício da cidadania.
O projeto alinha-se à cultura oceânica, movimento global iniciado em 2004 nos EUA e introduzido no Brasil em 2019, que busca conectar a sociedade com o mar, transformando essa conexão em prática pedagógica por meio de iniciativas como o Programa Escola Azul do Brasil, que integra o oceano diretamente ao currículo escolar.
De acordo com Thais Pillegi, coordenadora pedagógica do Programa, o Escola Azul reúne quase 700 escolas distribuídas pelas 5 regiões do país. A participação, porém, não é homogênea: há uma predominância de instituições próximas ao mar. Cerca de 61% das escolas são litorâneas, 11,6% estão em regiões costeiras e 27,4% no interior. Outro dado relevante é que 85% dessas escolas são públicas, o que reforça o papel da educação pública como protagonista na disseminação da cultura oceânica e na formação de cidadãos conscientes sobre a relação entre a sociedade e o oceano.


EMEF Prefeito Laurival Campos Cunha em Barcarena (Pará) / Imagem: Escola Azul Brasil
“A concentração no litoral reflete a vivência direta das comunidades com o mar e seus impactos. Já a presença de escolas interioranas mostra a força da ideia de que o oceano conecta todos os territórios, mesmo aqueles distantes da costa. Rios, bacias hidrográficas e biomas estão interligados, e compreender essa conexão é essencial para consolidar a cultura oceânica como prática cidadã em todo o Brasil”, explica Thais.
O grande desafio da cultura oceânica é sua inserção prática no currículo nacional. O chamado Currículo Azul, no qual o oceano entra no currículo da educação básica, surge como a ferramenta para essa integração, mas Thais alerta que o sucesso depende de conectar o local ao global.
“Somos um país de dimensões continentais, o que torna essencial adaptar o tema à Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Essa perspectiva exige que professores e escolas consigam olhar para o território em que estão inseridos e relacioná-lo ao contexto mais amplo, construindo uma compreensão integrada da cultura oceânica”, destaca.
Um caminho possível para os educadores é buscar a aproximação do cotidiano ao tema socioambiental de interesse.
“Quando os jovens percebem que o preço de produtos como café e azeite está diretamente ligado às alterações climáticas que afetam colheitas e cadeias produtivas, compreendem que os impactos ambientais não são distantes, mas se refletem dentro de casa”, exemplifica.
De acordo com Thais, essa percepção abre espaço para o desenvolvimento de projetos interdisciplinares, nos quais professores podem explorar a cultura oceânica e a sustentabilidade de forma integrada.
No entanto, a formação inicial dos cursos de licenciatura não contempla consistentemente a cultura oceânica. Para suprir essa lacuna, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), em parceria com a Universidade Aberta do Brasil (UAB), lançou o curso de especialização em Cultura Oceânica e Sustentabilidade, voltado a professores da educação básica, com o objetivo de capacitá-los para trabalhar a temática de forma interdisciplinar, articulando sustentabilidade e questões socioambientais.
Embora o tema pareça restrito às aulas de ciências, biologia ou geografia, a verdadeira potência da cultura oceânica reside na sua transversalidade. A coordenadora explica que os projetos não se limitam às paredes da escola, mas atravessam seus muros e alcançam a sociedade, promovendo transformação e consciência coletiva.
“Esse movimento pode trazer pertencimento e valorização das culturas tradicionais e da ancestralidade. Assim, a cultura oceânica deixa de ser um conteúdo escolar e se torna uma prática cidadã, capaz de inspirar novas formas de pensar e agir em relação ao planeta”, finaliza Pileggi.
Leia o artigo completo:

Publicado na revista científica Marine Policy, volume 185, de março de 2026.
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