A tríade de contribuições do oceano

Assim mesmo, no singular, já que temos apenas 1 oceano que se comporta distintamente em 5 regiões, de modo interconectado, inclusive com as nossas vidas

A tríade de contribuições do oceano
Roda de conversa com lideranças do povo Anacé em Caucaia / Imagem: Maristela Crispi
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*Por Juliana di Beo

Em meio às chuvas ininterruptas que assolavam São Paulo, às mutretas brasileiras envolvendo o caso Master, à corrida geopolítica pela IA e à sanção da lei que institui o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata) no Brasil, participei de um workshop de jornalismo científico sobre o oceano em Fortaleza.

Os 3 dias do evento foram organizados pela equipe do Earth Journalism Network (EJN) da Internews — organização criada em 2004 para promover e aprimorar a formação de jornalistas e comunicadores de países em desenvolvimento para que produzam reportagens mais precisas, profundas e mobilizadoras sobre questões socioambientais.

Para a minha sorte, a questão da vez foi o oceano, assim mesmo, no singular, já que temos apenas 1 oceano, que se comporta distintamente em 5 regiões, de modo interconectado, inclusive com as nossas vidas — fato enfatizado no evento pelo biólogo e coordenador do programa Maré de Ciência Ronaldo Christofoletti. 

É contável e extensa a lista das contribuições do oceano para nós, seres humanos. Para fins de síntese, vou mencionar três das quais, para mim, se destacaram no evento: o tráfego global da internet, que permite trocar informações e dados por todo o mundo, as práticas culturais estruturantes para os modos de vida de comunidades costeiras e a geração de bem-estar e desenvolvimento humano, que, no âmbito da educação e da ciência, servem como pilares para a geração de conhecimento, alfabetização e políticas socioambientais.

Partindo dessa tríade de contribuições materiais e imateriais do oceano, vou abrir as minhas reflexões sobre esse evento formativo, começando pela primeira: a conectividade digital, já que, especialmente em Fortaleza, a conectividade é estratégica.

A 4ª maior capital brasileira é um dos locais da América do Sul mais próximos da América do Norte, Europa e África, conectando a costa cearense a 18 cabos submarinos de fibra óptica no mundo todo.

Para além da conexão de fibra óptica no fundo do mar, a região metropolitana da capital entrou na mira da corrida da IA. Dezenas de data centers já foram instalados e novos projetos estão em processo de licenciamento para instalação. 

À luz dos problemas ambientais ligados aos data centers, o consumo de água e energia desponta como o de maior gravidade. Nesse quesito, Fortaleza, que entrou no mapa do mercado de IA até então dominado pela região de São Paulo em Campinas, está vivenciando um dos períodos mais sensíveis do ponto de vista socioambiental.

A capital, apesar de costeira, é marcada pelo clima semiárido, com pobre e heterogêneo regime de chuvas. Conclusão: falta de acesso à água por comunidades locais e agravamento da seca pela demanda hídrica dos data centers.         

A visita à comunidade indígena 

Há cerca de 34 quilômetros da Praia de Iracema, em Fortaleza, está o município de Caucaia. A região, apesar de ser reconhecida por abrigar um mosaico de ecossistemas, que se mesclam entre sertão, serra e mar, na comunidade indígena que visitei, com pouco mais de 5 mil habitantes, a escassez de água assola a região, que depende do abastecimento periódico de água por caminhão-pipa. A seca na região é frequente e motivada pela sinergia de fenômenos climáticos que têm sido agravados pelas mudanças climáticas e, agora, pela demanda de água dos data centers.   

Abastecimento de cisterna pelo caminhão-pipa para acesso à água potável pela comunidade Anacé em Caucaia / Imagem: Maristela Crispi

O mega projeto é o Data Center Pecém (conhecido como Data Center do TikTok) com área prevista de 70 hectares, equivalente a 98 campos de futebol. A estrutura prevê uma potência instalada de 300 MW (equivalente ao consumo mensal de 1,5 milhão de residências). Além disso, a instalação fica a apenas 2 km da Área de Proteção Ambiental Lagamar do Cauípe e da Terra Indígena Anacé. 

O 1º de 5 data centers que compõem o complexo do empreendimento já foi instalado; a expectativa é que o projeto finalize até 2027. A responsável pela operação é a Omnia, plataforma do Pátria Investimentos, que adquiriu a participação da empresa de energia eólica Casa dos Ventos em uma parceria com a ByteDance, dona da rede social TikTok. O complexo de data center será o maior individual (de um único cliente) do Brasil e também será o 1º voltado para a exportação – os dados processados aqui serão referentes a usuários de outros países. 

No entanto, o Ministério Público (MP) e a Defensoria Pública da União (DPU)  entraram com uma ação civil pública para impedir que o Data Center Pecém, em construção no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), em Caucaia (CE), inicie suas operações antes da realização de consulta livre, prévia e informada ao povo indígena Anacé e da elaboração de Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima).

A comunidade indígena da etnia Anacé vive originalmente na região cearense, e são historicamente conhecidos como povos de resistência à dominação de colonizadores, como destacou o cacique Roberto durante a roda de conversa que tivemos embaixo do pé de cajueiro. Ele relembra que durante o período colonial o povo indígena foi um dos últimos a ser colonizado, devido a essa força de resistência. Roberto comenta que, em paralelo aos dias de hoje, a comunidade ainda luta para dizer: ainda estou aqui, mas o colonialismo persiste.  

Roda de conversa com lideranças do povo Anacé em Caucaia / Imagem: Maristela Crispi

O avanço dos data centers na região de Caucaia acende um alerta socioambiental sobre seus efeitos na manutenção dos recursos hídricos e energéticos, além dos seus impactos nos modos de vida do povo Anacé. A comunidade indígena apresenta alta vulnerabilidade fundiária de suas Terras Indígenas (TIs), marcada por uma lentidão histórica, sem grandes avanços desde 2009 no processo de demarcação. 

Vale destacar que a corrida da IA não é a única ameaça à comunidade Anacé na região. O processo de urbanização com o incentivo do setor do turismo gerou transformações profundas na comunidade. Durante a roda de conversa, o cacique Roberto comenta que a  expansão dos loteamentos e do turismo na região forçou a população indígena a se distanciar do mar. De tal modo que hoje, a comunidade tem acesso limitado, pelo avanço de resorts, condomínios e urbanização.

Como consequência dessa expulsão da população originária para o interior de Caucaia, os modos de vida ligados ao mar foram sendo reduzidos, juntamente com a descarização das dunas móveis que deram espaço para o plantio de pinheiros. Em tom de pesar, o cacique Roberto relembra: “O povo vivia do mar, pescava-se em canoas com tarrafa e anzol, alugava-se cavalos e vendia cajus e cordéis nas praias”. Segundo ele, hoje o povo Anacé não tem mais mar.

A pesquisadora e articuladora dos direitos indígenas Soraya Tupinambá explica que a pesca é estruturante de modos de vida e sempre foi, mas o litoral cearense não conseguiu garantir esse direito para os povos, pois está extremamente fustigado pelo desenvolvimento econômico.   

Visita ao navio de expedição oceânica R/V Falkor (too)

Os amantes da sétima arte que viveram a juventude nos anos 80 podem se recordar com carinho da cena do filme “A História sem Fim”, onde o menino Bastian de uns 10 anos voava feliz em cima do dragão felpudo, Falkor. Esse mesmo dragão fofinho que marcou o imaginário popular foi inspiração para batizar um dos mais modernos e equipados navios de expedição científica marinha do mundo, o R/V Falkor — criado e coordenado pela fundação privada sem fins lucrativos sediada nos EUA, Schmidt Ocean Institute (SOI).

O menino Bastian voando em cima do dragão Falkor em cena do filme “História sem Filme”, que inspirou o nome do navio de expedição científica da Schmidt Ocean Institute.

Como cheguei a bordo do “navio-mundo” quase vinte anos depois do período marcante dos anos 80, não me identifiquei com a história do filme. Mas, claro que fiquei curiosa e entusiasmada em conhecê-la e principalmente em conhecer e entender como funcionava o navio colossal em tamanho e estrutura. Para minha sorte, o RV/Falkor (too)  estava atracado no Porto de Fortaleza esperando nosso grupo de jornalistas e comunicadores para um tour completo com explicações dos pesquisadores e técnicos a bordo. 

Fomos recebidas pelo especialista em oceanografia Carlos Fonseca, que nos guiou durante todo o tour. Conhecemos o passadiço, a sala de navegação onde o capitão controla a direção e o sentido da rota de navegação. A sala de computadores, sala de conferência e reuniões, sala de descanso e recreação, já que nem só de trabalho se vive o homem, e a Sala de Controle de Missão, onde técnicos operam o famoso veículo operado remotamente (ROV SuBastian) e outros veículos robóticos que podem ser usados nas expedições, como o veículo autônomo subaquático (AUV). 

Para se ter ideia de como funciona a expedição em etapas, primeiro é feito o mapeamento do leito marinho com sonares de varredura lateral. Há também  sonares multifeixe que detectam e mapeiam a topografia do fundo do mar em alta resolução e identificam corpos. É a sonda de subfundo que utiliza ondas sonoras de baixa frequência para mapear e "enxergar" as camadas de sedimentos e rochas abaixo do fundo do mar. 

Com essas informações, os pesquisadores conseguem criar mapas geológicos tridimensionais do leito marinho. Esses mapas vão orientar os próximos passos da expedição por fornecerem informações e dados importantes para os pesquisadores escolherem os pontos e regiões do oceano onde os robôs vão entrar em cena para servirem como extensões dos olhos e mãos dos cientistas.

Nesse momento, o AUV, que é similar a foguetes submarinos, só que muito mais lento e movido a bateria com uma autonomia de cerca de 72 horas, é lançado ao mar.

Esse veículo possui uma série de sonares de alta resolução para criar mapas tridimensionais detalhados do assoalho oceânico e sensores ambientais específicos que detectam dados físicos, químicos, geológicos e biológicos como salinidade, turbidez, clorofila,  níveis de oxigênio, pH, presença de poluentes ou derramamentos de óleo, falhas geológicas, vulcões submarinos e fontes hidrotermais. 

Por sinal, uma das principais descobertas feitas durante a série de expedições que está acontecendo de modo colaborativo com pesquisadores de diversas instituições científicas brasileiras e estrangeiras foi a detecção de dois novos campos de fontes hidrotermais na Zona de Fratura de Doldrums (uma região de fronteira entre placas tectônicas) ao longo da Dorsal Mesoatlântica. Durante uma conversa que tivemos no navio, o professor Christofoletti contou que foi emocionante e que os cientistas não contiveram as lágrimas no momento da descoberta, que estava sendo transmitida ao vivo pelo Youtube do Smith Ocean Institute.

O robô “cientista-filmmaker” responsável pela filmagem em tempo real e transmissão ao vivo é o ROV SuBastian. O ROV é multifuncional; ele filma, fotografa e coleta amostras de água contendo material biológico como e-DNA (DNA ambiental), rochas e seres vivos. 

Jornalistas, comunicadores, pesquisadores e equipe técnica durante a visita ao navio R/V Falkor (too) em Fortaleza / Imagem:: Schmidt Ocean Institute (SOI).

As expedições do Falkor (too) na costa brasileira 

Até o momento, foram concluídas duas expedições na costa brasileira.

  • A 1ª expedição, #Designing-the-Future-3, ocorreu em abril de 2026. A expedição levou à descoberta de diversas espécies novas pela ciência e incluiu pesquisadores da  Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).
  • A 2ª expedição #Doldrums Fracture Zone ocorreu entre maio e junho deste ano com a participação de pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Foi nesta expedição que a equipe descobriu 2 campos de fontes hidrotermais inéditos na região da mega transformação de Doldrums, na Dorsal Mesoatlântica. 

Mais de 30 espécies novas foram descobertas durante as expedições. A lista infelizmente não incluiu muitos representantes da chamada ‘fofo-fauna’, mas os menos carismáticos também amam. Dentre as novas espécies estão 9 águas-vivas, 1 anfípode, 1 tipo de crustáceo aparentado de caranguejos e lagostas; 7 sifonóforos, organismos coloniais aparentados de águas-vivas e corais; 7 ctenóforos, famosos pelos cílios cintilantes que utilizam para nadar; 4 larváceos, criaturas semelhantes a girinos que vivem em estruturas de muco e são mais próximos evolutivamente dos humanos do que dos invertebrados; e 2 rizários gigantes, organismos unicelulares visíveis a olho nu.

Imagens fantásticas a partir de vídeo do canal do Schmidt Ocean Institue no YouTube

Enquanto escrevo esse texto, a terceira expedição na costa brasileira  #Life at the Romanche Fracture Zone está acontecendo e sendo transmitida ao vivo. Ela vai ocorrer até 26 de outubro e está sendo liderada pelo doutor em Oceanografia Jose Angel A. Perez, da Universidade do Vale do Itajaí (Brasil), e pela pesquisadora Kerry Howell, do Plymouth Marine Laboratory (Reino Unido).

O objetivo é explorar e descrever as interações e padrões ecológicos de espécies e comunidades que vivem fixas no fundo do mar a mais de 4 mil metros de profundidade. Com as informações e dados coletados nessa expedição, espera-se ampliar as possibilidades de classificar áreas específicas dessa região de alto-mar – que abrange uma área do Brasil até Gana – como Ecossistemas Marinhos Vulneráveis.

De frente pro mar e para política ambiental 

Retomando o fio da meada, vivenciei nesse workshop grandes contrastes, de um lado os conflitos socioambientais que permeiam comunidades indígenas Anacé com a corrida da IA, até os avanços da pesquisa em mar profundo sem precedentes. Agora, o oceano, esse sistema contínuo e interconectado, que nos fornece tanto, precisa de uma retribuição.  

O que podemos fazer, sendo clichê, é agir criticamente e politicamente. Pensar globalmente e agir localmente (ideia enfatizada como um mantra no evento) é entender que quando escolho uma candidata/o, ou escolho escrever um texto em um formato, eu, enquanto educadora ou comunicadora de ciências, não ajo nesse âmbito só para o meu umbigo individual, mas para um todo coletivo. Como diz um colega de trabalho, precisamos cuidar dos nossos, e isso inclui o oceano.

O maior desafio disso tudo para mim está colocado pela filósofa belga Isabelle Stengers em seu livro “Uma outra ciência é possível: Manifesto por uma desaceleração das ciências”, em que ela defende a urgente necessidade de mudar a lógica de fazer ciência visando à produtividade e à submissão ao mercado e à indústria que comprometem a integridade ética e a relevância social da ciência. Isso pode explicar em parte por que há tanta dificuldade em conectar e fazer ciência transdisciplinar com saberes tradicionais. 

Passos longos precisam ser dados em busca do ponto de equilíbrio e balanço que permitirá, com sabedoria, encontrarmos uma atuação cidadã dinâmica onde entendemos quando podemos acelerar sem correr e quando podemos desacelerar sem parar. 

O que mais estamos vendo 

Corte de um webinário do Correio Sabiá sobre soberania digital, em que pesquisadoras falaram especificamente sobre o Redata.

Tour pelo Falkor, direto do canal do Schmidt Ocean Institute

Webinário completo do Correio Sabiá sobre soberania digital. Siga o canal.

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Leitura adicional: EJN and Schmidt Ocean Institute Train Brazilian Journalists on Ocean Science, Governance and Data Reporting. Earth Journalism Network

Autor

Ressoa Oceano
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Somos uma rede colaborativa de comunicação sobre o oceano. Apostamos na ação conjunta de atores sociais diversos para mobilizar ações para conscientização e mudança de comportamento em relação à cobertura, percepção e visibilidade sobre o oceano.

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