A natureza também paga o preço da guerra

Dos mares contaminados às florestas incendiadas, os efeitos ambientais dos conflitos bélicos são profundos e duradouros

A natureza também paga o preço da guerra
Uma ativista do Greenpeace segura uma faixa com os dizeres "Não à guerra" no centro de Madri, Espanha, na terça-feira, 10 de março de 2026 / Imagem: AP/Bernat Armangue
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O essencial

*Por Monique Torres

As guerras (conflitos bélicos) parecem ser inerentes à existência humana. Às vezes surgem por disputas territoriais complexas; em outras, por razões quase absurdas, como a morte de um porco ou o ego ferido de um governante em crise de meia-idade. Seja qual for a origem, estamos acostumados a folhear um livro de história, ouvir um podcast de geopolítica ou ler notícias sobre conflitos que escalam para a destruição parcial ou completa de um local e de suas populações. 

É desconfortável para mim, enquanto profissional das ciências da Terra, trazer à tona os impactos ambientais causados pelos conflitos bélicos enquanto vidas humanas são não apenas destroçadas, como também tratadas como um custo necessário a ser pago por uma guerra. A título de contextualização do nosso atual cenário global, contabilizamos hoje mais de 500 mil vidas perdidas em 4 anos de guerra entre Ucrânia e Rússia, além de 70 mil mortes em 2 anos de guerra em Gaza, sendo 83% de civis palestinos. 

Com os recentes ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã que, segundo diferentes relatos, resultaram na morte de mais de mil iranianos em poucos dias de conflito, o assunto “guerra mundial” voltou às discussões populares nas redes sociais. Nesse contexto, acredito que possamos abrir espaço para uma discussão sobre como as guerras contribuem para a destruição rápida do meio ambiente e, inclusive, como a degradação ambiental pode ser usada como uma ferramenta para atingir um povo. 

Destruição em terra 

O bombardeio em áreas florestadas pode dizimar hectares de florestas em estágios avançados de sucessão ecológica, afetando toda a rede de biodiversidade local. Como exemplo, podemos lembrar a Guerra do Vietnã (1955–1975), quando herbicidas foram amplamente utilizados como estratégia militar.

Estima-se que mais de 80 bilhões de litros dessas substâncias tenham sido pulverizados sobre o território vietnamita, especialmente o chamado “Agente Laranja”, composto pelos ácidos 2,4-diclorofenoxiacético (2,4-D) e 2,4,5-triclorofenoxiacético (2,4,5-T).

Calcula-se que pelo menos 20% das florestas do país tenham sido atingidas por esses compostos químicos. O objetivo era eliminar a cobertura vegetal que servia de abrigo ao inimigo e destruir plantações, principalmente de arroz. 

Segundo um artigo publicado por Jeff Tollefson na Nature sobre a guerra entre a Ucrânia e a Rússia, além da destruição direta da vegetação e da fauna, os conflitos armados também contribuem significativamente para o aumento das emissões de gases de efeito estufa.

As operações militares dependem intensamente de combustíveis fósseis para movimentar veículos blindados, aeronaves, navios e toda a complexa logística necessária para sustentar uma guerra. Com isso, o setor militar acaba se tornando uma importante fonte de emissões associadas ao petróleo. 

Esquema resume alguns dos principais impactos ambientais associados à guerra entre Rússia e Ucrânia, incluindo aumento das emissões de gases de efeito estufa, perda de biodiversidade, degradação do solo e contaminação da água, com consequências diretas para os serviços ecossistêmicos e a saúde humana / Imagem: Figura traduzida do artigo "Russian-Ukrainian war impacts the total environment"/Pereira et al., 2022

Destruição em mar 

Os impactos ambientais da Guerra do Vietnã também alcançaram os ambientes aquáticos. Parte dos herbicidas pulverizados sobre as florestas acabou sendo transportada para rios, estuários e zonas costeiras por meio do escoamento das chuvas e da erosão dos solos contaminados. Assim, substâncias associadas ao chamado Agente Laranja passaram a integrar sedimentos fluviais e marinhos. 

Um dos compostos mais preocupantes nesse processo é a dioxina TCDD. Quando exposta diretamente à luz solar, essa molécula pode se degradar em alguns anos. No entanto, quando fica protegida da radiação, como ocorre em solos cobertos por vegetação ou em sedimentos de rios e ambientes marinhos, sua decomposição pode levar décadas. Em sedimentos aquáticos, estudos estimam que esses contaminantes possam persistir por mais de um século. 

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A 2,3,7,8-tetraclorodibenzo-p-dioxina (TCDD) é a forma mais tóxica de dioxina, um poluente ambiental persistente e agente cancerígeno que se acumula no tecido adiposo humano e animal. Como subproduto industrial (e.g., Agente Laranja), causa cloracne, distúrbios reprodutivos, hormonais e imunológicos, sendo altamente resistente à degradação. A TCDD é um sólido incolor/branco, insolúvel em água, com ação mesmo em baixas concentrações.

No caso das tensões envolvendo o Irã e seus adversários na região do Golfo, ataques contra infraestruturas petrolíferas e instalações portuárias aumentam o risco de vazamentos de petróleo e derivados no mar. 

Além dos possíveis derramamentos diretos, incêndios em refinarias e depósitos de combustível liberam grandes quantidades de fuligem e hidrocarbonetos na atmosfera. Parte desse material pode retornar ao ambiente por meio da chuva, fenômeno conhecido como “chuva negra”, sendo transportado para rios, reservatórios e áreas costeiras.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) emitiu um alerta. Em uma região onde a economia e a segurança alimentar dependem fortemente do mar, a deposição desses poluentes representa uma ameaça adicional aos ecossistemas marinhos do Golfo e às comunidades que vivem da pesca. 

O ambiente como arma de guerra 

Mais de 50 anos após o fim da Guerra do Vietnã, a contaminação causada pelos herbicidas pulverizados em cerca de 20 mil missões militares ainda persiste no ambiente / Imagem: U.S. Air Force 

Os impactos ambientais podem não ser apenas uma consequência dos ataques provocados por uma guerra, mas também uma estratégia deliberada para fragilizar o adversário e colocá-lo em desvantagem. A destruição proposital de terras agrícolas, a contaminação de nascentes e a poluição do ar são alguns dos mecanismos cruéis utilizados para forçar deslocamentos populacionais ou provocar mortes sem que seja necessário efetuar um disparo direto. 

No conflito entre Estados Unidos e Irã, o governo iraniano denunciou que tropas estadunidenses teriam atacado a usina dessalinizadora da ilha de Qeshm, responsável pelo abastecimento de água potável para cerca de 30 aldeias.

Dadas as condições ambientais do Oriente Médio, onde a escassez de água já é uma realidade para milhões de pessoas, a destruição de uma infraestrutura que garante o acesso à água potável pode rapidamente se transformar em uma crise humanitária, expondo populações inteiras à sede, à insegurança sanitária e ao deslocamento forçado. 

Ao longo da história, guerras redesenharam fronteiras e destinos humanos, mas também deixaram cicatrizes profundas nos ecossistemas que sustentam a vida. Florestas devastadas, solos contaminados, rios poluídos e mares que carregam, por décadas, os resíduos de conflitos mostram que o impacto ambiental da guerra não termina quando cessam os combates.

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Ressoa Oceano
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